A pergunta (ou o conjunto de perguntas) que não quer calar: se o contrato firmado com a advogada e mulher do ministro Alexandre de Moraes foi a compra de proteção para o Banco Master; se o pagamento ao senador Ciro Nogueira foi por serviços prestados por ele ao banco; para que serviu, ou serviria, o dinheiro dado por Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro para financiar o filme em homenagem ao seu pai?
Perguntado de outra maneira: com o dinheiro para o filme, Vorcaro saldou dívidas antigas que contraiu com a família Bolsonaro? Ou pagou por favores futuros caso Flávio se eleja presidente? Os brasileiros têm o direito de saber – seja para confirmar seu voto em Flávio, seja para cancelá-lo. No momento, a tarefa investigativa cabe à Polícia Federal, e em breve poderá caber também à Justiça.
Suponho, por ora — só suponho, como está na moda —, que a família Bolsonaro, mulher e filhos, sabia que Vorcaro supostamente se comprometera a financiar o filme sobre o chefe do clã, condenado e preso por tentativa de golpe. Ou ninguém sabia, apenas Flávio, supostamente? Nem Michelle sabia, a defensora intransigente de que o lar é o principal “ministério” de uma mulher?
Se ela sabia por viver permanentemente à cabeceira do marido condenado e preso por tentativa de golpe — e nesse caso não cabe suposição —, os que já falam em substituir Flávio por outro candidato não devem cair na tentação de pensar no nome de Michelle. Ela terá que passar a campanha inteira simplesmente explicando por que ignorava as transações financeiras da família com Vorcaro. Quem acreditará?
O melhor será deixar Michelle em paz. Ou providenciar uma cuidadora para sucedê-la à cabeceira do marido enfermo, uma vez que Michelle disputará uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Ao se arriscar para não perder os benefícios que o cargo lhe oferece, Flávio poderá tentar renovar seu mandato como senador pelo Rio de Janeiro. O Senado, afinal, é o céu, disse o antropólogo Darcy Ribeiro.
Um céu onde Carlos, o Zero Dois, espera brilhar a partir do próximo ano como senador por Santa Catarina. Um céu onde Eduardo, o Zero Três, espera chegar como suplente de senador se… Se a Justiça não o condenar por seus malfeitos nos Estados Unidos; se o deputado estadual paulista André do Prado, candidato ao Senado e do qual ele é suplente, se eleger; e se, finalmente, do Prado concordar em ceder o lugar a Eduardo. É muito “se”, convenhamos.
Mas nada é impossível para o celebrado roteirista do filme Brasil. Quem, senão ele, seria capaz de imaginar a história de um presidente eleito que é internado na véspera da posse e morre sem assumir o cargo? Foi assim com Tancredo Neves, o primeiro a se eleger presidente com o fim da ditadura militar. E a história do ex-capitão, saudoso da ditadura, que no segundo turno da eleição de 2022 votou em Lula? Sim, Bolsonaro votou em Lula e quis emplacar o novo ministro da Defesa. Sem falar da história do filho “moderado” do ex-capitão que planejava subir a rampa do Palácio do Planalto na companhia do pai anistiado por ele; uma história prestes a se evaporar.
Em todo o caso, é prudente para Lula não subestimar o roteirista.
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Fonte: Metrópoles




