É claro que um cruzado atingiu o queixo de Flávio Bolsonaro. Se vai sobreviver na luta, o tempo dirá. A pancada veio num momento especialmente ruim. Outras pesquisas já vinham sugerindo que tanto a queda de Lula como a ascensão do Zero Um haviam estancado. Nesse particular sentido, os números da Quaest, logo ao raiar do dia, já não haviam trazido uma boa notícia: Lula recuperou a dianteira numérica, e melhoraram tanto a avaliação que a população faz do governo como a do desempenho do presidente. Nem bem os “corner men” colocavam as compressas de toalha molhada e davam uma abanadinha no bravo, lá veio o cruzado … E o Zero Um teve de beijar a lona.
Que fique claro — e não preciso atuar como juiz para reconhecer que Flávio e a extrema direita estão completamente zonzos: ainda não se tem a evidência de que a relação fosse propriamente criminosa. Por ora ao menos, o ponto não é esse: ocorre que Flávio, o Impoluto, era aquele nada tinha a ver com o Banco Master. Embora tenha sido o BC a liquidar a instituição e a PF a conduzir uma investigação implacável, a extrema direita navegava na mistificação de que esse era um escândalo do governo…
Flávio levou tão a sério a fantasia que, na recente encalacrada do senador Ciro Nogueira (PP-PI), resolveu lavar as mãos. Entregou o aliado às cobras. Certamente não tinha esquecido os verões passados.
A evidência de um acordo de R$ 134 milhões (câmbio da época), perto de US$ 25 milhões, e o período em que Flávio faz a cobrança — com o banco já arruinado — e expressa sua fidelidade a Vorcaro (um dia antes a prisão), bem, isso tudo, com efeito, o leva a sentir o gosto que tem o chão do ringue.
Veio a nota, em que foi obrigado a admitir o pedido de dinheiro, restando-lhe não o papel de presidenciável, mas o de filho extremoso que só pensa nas glórias do pai. Metade do eleitorado, ou pouco mais, que já diz que votaria em Lula no segundo turno não vai cair nessa conversa. Já a outra quase metade é formada de fanáticos — não dá para saber bem o percentual, talvez entre 30% e 40% dela —, mas também de parcela considerável que não gosta do PT, de Lula, do que está aí… Mas é provável que levasse razoavelmente a sério o discurso do Flávio moralizador…
Mais: esses não fanáticos também se deixam mover pela conjuntura. A melhora nos indicadores de Lula, registrada pela Quaest, pode estar ligada ao Desenrola; ao desempenho de Lula — aprovadíssimo! — na relação com Trump; à possibilidade do fim da jornada 6 X 1. Essa pauta, diga-se, ainda não está mobilizando o eleitorado, mas vai. O fim da taxa das blusinhas ainda não está nos índices — nem a eventual intervenção no preço da gasolina. “Que absurdo! Tudo coisa na boca da urna”, diz o falso liberal que torce secretamente para o ainda golpista Flávio. Bem, não é meu ponto de vista. Como sou um democrata, gosto que eleições existam para mover os governantes e homens públicos. Endosso o ponto de vista de Yascha Mounk em “O Povo contra a Democracia”: a crise desse modelo de governo deriva da progressiva irrelevância do eleitorado sobre a governança. Essa importância precisa ser recuperada.
É claro que a pancada que Flávio sofre é relevante. Tanto a sua nota como a sua fala são patéticas. Teve de assumir a intimidade com Vorcaro e o pedido de dinheiro, aproveitando para atacar a Lei Rouanet, para dizer que se tratava de uma relação entre privados e, claro!, para pedir, para a crença de ninguém, uma CPI contra o banco daquele a quem chamou de irmão na véspera da prisão.
Pode até ser que não haja crime nenhum na relação. A questão, no momento, não é de natureza penal, mas política. De resto, como não observar? “Ainda Estou aqui” teve um orçamento de, no máximo, R$ 50 milhões. “O Agente Secreto” custou R$ 27 milhões. Estou falando de obras, digamos, “oscarizadas”. O tal “Dark Horse”, que conta a vida venturosa de Jair Bolsonaro, por alguma razão, foi orçado em R$ 134 milhões. Para contar a vida de um golpista? Já que Flávio está na parada, não será maldade se alguém supuser, sei lá, uma forma de rachadinha. Segundo a apuração do Intercept Brasil, ao menos R$ 61 milhões teriam sido pagos. Se dinheiro fizesse Oscar, daria para trazer para o Brasil uma penca deles, que seriam postos no túmulo do torturador Brilhante Ustra, para fazer jus à vida daquele que motiva a hagiografia. Por ora, a extrema direita diz: “Somos todos Flávio”. Mas eles também sabem que não. Flávio, no momento, está na lona.
Fonte: Metrópoles




