
Há um tipo de coragem que não aparece nos noticiários. Não tem o timbre de uma conquista espetacular, nem a moldura de uma virada repentina. Mas se manifesta no gesto silencioso de quem decide, um dia, que é possível reorganizar a própria vida ao redor daquilo que realmente importa. É essa coragem que une Silaine Dias e Selma Aparecida Magalhães, duas mulheres que se conheceram em um curso de Corte e Costura Criativa, em Campinas, promovido pelo Programa Caminho da Capacitação, do Fundo Social São Paulo (FUSSP), e descobriram, uma na outra, o reflexo de uma mesma busca: construir autonomia sem abrir mão da presença. Ambas são atendidas pelo Programa SuperAção SP, da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (SEDS).
Silaine tem 43 anos, três filhas (23, 17 e 9 anos) e uma história que ela mesma define como uma longa costura interrompida. Perdeu a mãe aos quatro anos de idade. Da figura materna, restaram poucas memórias e um legado guardado como preciosidade: o talento para a costura e o bordado, ofício que a mãe exercia com maestria e que a vida, com seus imprevistos, não deixou Silaine aprender a tempo.
Durante décadas, o sustento da família veio do trabalho como cuidadora infantil, uma ironia delicada para quem como ela, mãe solo, saía de madrugada e voltava à noite, perdendo os marcos do crescimento das próprias filhas. As duas mais velhas cresceram enquanto ela cuidava dos filhos de outras pessoas. Da caçula, ela não quer perder mais nada.
“Costurar é resgatar um pedaço da minha mãe que perdi muito cedo. Mas, mais do que isso, é a minha chance de poder trabalhar vendo ao menos a minha caçula crescer. É sobre costurar o sustento sem abrir mão da minha presença como mãe”, coloca.
O SuperAção SP foi o ponto que faltava nessa costura. Após concluir o curso, Silaine começou a criar bolsas e acessórios e planeja montar o próprio ateliê, com a casa como centro da economia familiar. Mas o projeto mais ambicioso ela guarda no coração com o cuidado de quem protege algo sagrado: um dia, quer costurar os vestidos de noiva das três filhas.
“Daqui a algum tempo, minhas filhas vão formar suas próprias famílias. Além de estar com elas, quero que vistam os vestidos de noiva que eu tiver desenhado e costurado para cada uma.”
Entre cortes e costuras, Silaine não está apenas construindo um negócio. Está bordando a presença nas histórias das filhas que, por muito tempo, o trabalho informal e invisível não deixou florescer.
Mãe solo
A poucos quilômetros de distância da Silaine, numa das periferias de Campinas, Selma Aparecida organiza a rotina com a mesma determinação. Mãe solo, conta com a ajuda da filha para compor as despesas da casa. Mas é outra mulher que ocupa o centro da sua atenção e cuidado: dona Mastrolina, sua mãe, idosa e com deficiência visual.
“Tive de esconder todas as escadas e banquinhos porque, mesmo sem poder enxergar, mamãe teimava em subir nos armários para fazer limpeza”, conta Selma, com um sorriso que mistura orgulho e cuidado. “Ela sempre foi muito ativa. É desafiador para ela ficar parada. E não temos condições financeiras ainda para envolvê-la em atividades para pessoas idosas que poderiam ajudá-la a atravessar essa fase com mais conforto.”
A solução que encontraram é simples e reveladora: sob a supervisão de Selma, dona Mastrolina é a responsável por cuidar das plantas da casa e lavar as janelas. E o faz, segundo a filha, com a mesma excelência de quando podia enxergar.
Para Selma, deixar a mãe sozinha não é uma opção nem emocional nem financeira. “Não posso sair de perto da mamãe. E se for para manter um cuidador de idosos, teria de ser com um nível de qualidade que ainda não tenho condições de pagar.” A saída foi construir fontes de renda que coubessem dentro de casa. Começou pela confeitaria, que mantém uma clientela fiel e apaixonada. Aprendeu a bordar por conta própria, abrindo mais uma frente de renda. E, pelo SuperAção SP, chegou ao curso de Corte e Costura Criativa, onde encontrou Silaine e uma perspectiva nova de futuro.
“O SuperAção SP me ajudou a enxergar que existem infinitas possibilidades para trilhar a estabilidade financeira e desenvolver mais autonomia. Tudo isso sem precisar sair de casa. Assim aproveito mais tempo, e com qualidade, para me dedicar à minha mãe, que sempre foi tão importante para mim.”
Selma não vê o cuidado com a mãe como uma obrigação. Fala dele como quem descreve um privilégio raro, que só se compreende de verdade quando se percebe o que é finito.
“Cuidar dela não é um dever. Não estou devolvendo o tempo, o carinho e o esforço que ela dedicou a mim por tantos anos. Para mim é um prazer que não consigo traduzir em palavras. Mãe é um dos bens mais preciosos que a gente tem. Estou acompanhando o envelhecimento dela de perto, e isso é um privilégio. Um dia ela não estará mais aqui comigo. Quero aproveitar enquanto podemos nos abraçar, rir de histórias do passado e relembrar os tempos em que íamos aos bailões juntas.”
Dona Mastrolina ouve e os olhos que não enxergam mais, marejam. Mas ela mantém uma precisão que vai além do visível. “Nesse Dia das Mães, é mais um dia para eu agradecer pela filha preciosa que tenho. A Selma é tudo para mim. Eu encaro os desafios da vida porque ela está comigo.”
Silaine e Selma são exemplos das expressões mais sofisticadas de inovação social: a capacidade do Estado de construir políticas públicas que chegam onde as estatísticas não alcançam: na intimidade de uma família, no tempo compartilhado entre mãe e filha, no gesto de uma mulher que decide que seu trabalho e presença podem, finalmente, ocupar o mesmo espaço. O SuperAção SP devolveu a elas o direito de escolher onde estar e com quem.
Sobre o SuperAção SP
O SuperAção SP integra políticas públicas de diferentes áreas em uma jornada completa de atendimento às famílias em situação de vulnerabilidade social, com acompanhamento individualizado para a promoção da autonomia. A iniciativa é voltada a famílias residentes no estado, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e com renda familiar por pessoa inferior a meio salário-mínimo nacional.
Além disso, o trabalho dos agentes inclui conectar as famílias a políticas públicas às quais já têm direito, mas que muitas vezes não acessavam por falta de informação, orientação ou acesso. O acompanhamento pode durar até dois anos, com monitoramento adicional para avaliação dos avanços.
O SuperAção SP atua por meio de duas trilhas de apoio. Na Trilha de Proteção Social, famílias em situação de maior vulnerabilidade recebem acompanhamento prioritário com auxílio mensal para atendimento de necessidades básicas. Já na Trilha de Superação da Pobreza, o foco é a capacitação, a qualificação profissional e a inclusão no mundo do trabalho, com acompanhamento contínuo e diversos incentivos financeiros ao longo da jornada.
Atualmente, o programa está em 48 municípios que aderiram à primeira onda. A iniciativa prevê beneficiar 105 mil famílias até 2027, com investimento superior a R$ 1,5 bilhão, entre recursos do Tesouro Estadual e financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
Fonte: Agencia SP




