Xandão derrota Messias? Dialética é alarmante. Só perde para a burrice

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A dialética está assumindo proporções alarmantes no Brasil. E, como se sabe, quando isso acontece, é hora de chamar o Supremo — bem…, todos reclamam do tribunal, mas correm pra lá quando a necessidade aperta. Parece o “Ricky’s Café” do filme “Casablanca”. Falta definir, na Corte, quem faria o papel de Humphrey Bogart, o Ricky. Meu candidato não é, obviamente, Edson Fachin. Caras, caros e cares, vou demonstrar aqui que Alexandre de Moraes não ajudou a rejeitar Jorge Messias e que isso é uma fantasia das pessoas com ideias fixas, que precisam, quem sabe?, encontrar a boa terapia. Mas, antes, preciso brincar com vocês. Porque textos também têm de apelar ao prazer, não só ao mundo das trevas e às melancolias malsãs.

“Casablanca”? Quem poderia pronunciar no STF a frase “Sempre teremos Paris?” Alguém diria: “Gilmar. Um ‘Gilmarpalooza’ na Cidade-Luz”. Não sei se já houve. Se não, está a dever. Ah, sim: jamais repitam que Bogart — quer dizer, Rick — diz ao pianista “Toque outra vez, Sam…” Isso não aconteceu. Falsa memória de milhões. Quando Ilse, a inefável Ingrid Bergman, a amante de Rick de Paris, entra no seu café em Casablanca e pede que o músico dedilhe “As time goes by”, ela o faz nestes termos: “Play it once, Sam. For old times’ sake.” Eu traduziria assim: “Pô, toque só um pouquinho, Sam, em nome dos velhos tempos”. Hesitação. Então é Rick a dizer: “Play it, Sam. Play ‘As Time Goes By’” E ele o faz de novo depois que ela se vai: “Se ela aguenta, eu também posso aguentar”.

Quem não leu “Viagem na Irrealidade Cotidiana”, de Umberto Eco, editado no Brasil em 1984 pela Nova Fronteira, corre o risco de ser menos feliz do que aqueles que o fizeram. Eu tinha 22 anos e ninguém estava morto, como escreveu um poeta. Ali se encontra (imagem) o texto “Casablanca, ou o Renascimento dos Deuses” Imagem) obra de gênio.

“Caramba, Reinaldo! Você começou a falar de STF e Moraes e depois fez digressões sobre ‘Casablanca’ e Eco?” Pois é… Sempre que a burrice em estado puro toca em mim, busco um refúgio em alguma manifestação de inteligência superior para me proteger. Querem que volte ao ponto — desde que vocês prometam ver o filme e ler o livro? Então volto.

Vamos lá. Comecem a ler este longo período com entonação interrogativa: então Moraes teria se juntado a Davi Alcolumbre para derrubar o nome de Messias, e a consequência óbvia desse arranjo, ora vejam! — e isso é sustentado numa mesma página — seria um sinal de Alcolumbre ao próprio tribunal de que, se reeleito presidente do Senado, poria para tramitar pedidos de impeachment se um extremista de direita, a exemplo de Flávio, fosse eleito? É isso mesmo?

Nessa hipótese, Moraes ajudou a cavar a cova em que seus adversários sonham enterrá-lo caso logrem o seu intento? Mais do que isso: como é quem é, teria ajudado a derrotar Messias para, na hipótese de Flvico vencer, dar ao o extremista de direita que quer destruí-lo uma vaga a mais no Supremo? Urge recorrer ao STF com uma ADPF (já que ela antecede a Constituição) contra a dialética. Precisa ser declarada inconstitucional para que pare de confundir a cabeça de nossos analistas…

É sério isso tudo? Mas por que Moraes agiria desse modo? Aí vem a resposta…

IDEIA FIXA: TODOS OS CAMINHOS LEVAM AO MASTER
Todos os caminhos levam ao Master segundo o fanatismo anti-Supremo e anti-Master. A explicação alucinada: como nem Alcolumbre nem Moraes estariam interessados numa apuração rigorosa contra o banco, então fariam essa aliança, mas aí em parceria com o próprio Flávio, que suspenderia temporariamente suas restrições ao ministro que mandou seu pai para a cadeia para atender a esse arranjo…

O troço é espantoso. Mas a tese conspiratória está em curso e seduz os idiotas que não leram “O Alienista”, de Machado de Assis. Há um Simão Bacamarte na Imprensa que conseguiu convencer todos os seus colegas de Itaguaí que nada há mais no Brasil que não seja o Banco Master, em associação com o terrível Alexandre de Moraes… E quem não acreditar nisso está louco.

E esse tal Moraes é de tal sorte nefasto que atua para derrotar Jorge Messias, ainda que ele próprio seja a vítima potencial dessa derrota. Parece uma piada, eu sei.

Não se comete mais crime no Brasil que não esteja associado ao Master. Podem pesquisar: aquela grosseria que alguém fez contra você no Supermercado tem a ver com Vorcaro. Com absoluta certeza, você encontrará vínculos entre o estúpido que o afrontou e o ex-banqueiro. Não há pessoa no mundo que seja alheia a você em, no máximo, sete círculos de relações. No geral, bastam cinco.

Com que então o terrível Xandão ajudou a organizar, em companhia dia Flávio Dino, as precondições do seu impeachment?

Deveria haver um limite para o ridículo. Mas não há. Vamos de Machadão no Capítulo IV de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”? Assim: “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.

E há “sedizentes” progressistas fazendo coro ao reacionarismo mais abjeto. Antes fosse inocência…

Assistam ao filme “Casablanca”, Leiam Umberto Eco. Antes que seja tarde demais. Ah, sim: Hegel está espantado, ele me diz em mensagem espiritual. Não sabia que a dialética ainda seria a morada da burrice saliente.

Fonte: Metrópoles