Costa ordenava compra de carteiras enquanto discutia imóveis com Vorcaro

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A diretoria liderada por Paulo Henrique Costa ordenava que as áreas técnicas do BRB negociassem a compra de carteiras de crédito do Banco Master em ritmo frenético, que chegava a R$ 1 bilhão por semana, enquanto ele tratava de receber R$ 146 milhões em imóveis de Daniel Vorcaro.

A Polícia Federal considera essas negociações como propina paga pelo controlador do Master ao presidente do BRB para que o Banco de Brasília continuasse comprando carteiras e dando liquidez à instituição financeira de Vorcaro.

Documentos obtidos com exclusividade pelo Metrópoles mostram como os procedimentos internos a respeito da compra de carteiras de crédito do Credcesta pelo BRB mudaram ao longo do tempo.

Uma vez arranjadas para nunca ultrapassarem o montante de R$ 750 milhões – para não serem submetidas ao Conselho de Administração – as carteiras foram sempre compradas com aval unânime da diretoria colegiada, órgão formado pelo presidente Paulo Henrique Costa e os diretores nomeados por ele.

Nas reuniões para aprovar as primeiras aquisições, em junho e agosto de 2024, os diretores era abastecidos com planilha de Excel projetando diversos cenários, batimento de mercado (se outras empresas ofereciam produtos e condições melhores) e informações detalhadas sobre o perfil do que estava sendo comprado.

À medida que as compras foram se tornando mais rotineiras, as diligências foram sendo flexibilizadas. O batimento nunca mais foi realizado, os números deixaram de ser calculados, pareceres antigos passaram a ser reciclados e, em diversas ocasiões, produzidos depois não só depois de a transação já ter sido aprovada pela diretoria. O dinheiro era pago ao Master antes de os pareceres existirem.

Ato contínuo, favor comprar mais

A partir de 5 de março de 2025, o fluxo ganhou uma novidade: na mesma reunião em que a diretoria comandada por Paulo Henrique Costa aprovava a compra de uma carteira do Master, ela também determinava a aquisição de outra. A coluna identificou dez despachos consecutivos com o mesmo texto:

“Após análise da matéria, a Diretoria aprovou a proposta por unanimidade. Ato contínuo, solicitou à Dific/Suope que realize a prospecção e negociação para aquisição de R$ 750 milhões adicionais de carteira de crédito cartão consignado, além do valor proposto nesta nota executiva”.

O período de compra desenfreada, a partir de 5 de março, coincide com as negociações entre Costa e Vorcaro. Vide mensagem do presidente do BRB ao controlador do Master obtida pela PF e citada no despacho do ministro André Mendonça que determinou a prisão de Costa:

Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando. Dia 01/03 está logo aí“, escreveu o ex-presidente do BRB. Na mesma conversa, ele perguntou a Vorcaro: “O que ainda temos de carteira varejo?

De acordo com a PF, a operação da estrutura societária que ocultaria a vinculação formal entre os imóveis e Paulo Henrique Costa foi autorizada por Vorcaro no dia 8 de janeiro e durou até 10 de maio, quando o banqueiro ordenou que seu operador jurídico “travasse tudo”. A hipótese da polícia é que ele teve ciência da instauração de procedimento investigatório sigiloso para apurar, exatamente, o pagamento de propina ao presidente do BRB.

Durante o período entre 8 de janeiro e 10 de maio, o BRB comprou R$ 10,780 bilhões em carteiras de crédito do Master, sempre fracionadas em até R$ 750 milhões – quando o valor excedia, uma carteira era comprada pela metade, ficando o restante para ser adquirido com a aprovação seguinte.

Já durante o tempo em que a diretoria colegiada comandada por Paulo Henrique Costa ordenava formalmente que as áreas técnicas buscassem mais e mais carteiras de crédito, movimento que durou de 5 de março até 17 de julho, o BRB comprou R$ 13 bilhões em carteiras do Master. Se consideradas também compras efetuadas depois a partir de autorizações dadas neste período, a conta chega a R$ 14 bilhões.

Fonte: Metrópoles