Presidente tenta terceirizar a culpa pelo tarifaço

Se Flávio tivesse mesmo essa condição excepcional de persuadir Trump a aumentar as tarifas para importação dos produtos brasileiros, deveria ser o presidente do país

ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFPLula e Donald Trump em encontro nos EUA

Quem é o presidente do Brasil? Lula. Quem escolheu os atuais ministros do governo? Lula. Quem dita os rumos da economia brasileira? Lula. Quem tem autoridade e poder para estabelecer as relações internacionais? Lula. Quem é o responsável, no Poder Executivo, por buscar a harmonia com os poderes Legislativo e Judiciário? Lula.

Sim, Lula é o cara. Vangloriou-se de ter uma “química” com Trump e de ter sido recebido com pompa e circunstância pela Casa Branca. Aproveitou eventos para cantar em verso e prosa o protagonismo de ter retirado a Lei Magnitsky das costas do ministro Moraes. Recebeu até um agradecimento público pelo feito.

Famoso quem?

Quem é Flávio Bolsonaro? Quase um famoso “quem?”. Tem zero poder para escolher ministros, tanto do Executivo quanto do Judiciário. No máximo, participa da sabatina dos indicados pelo presidente da República, sabendo que seus questionamentos, em meio aos 81 senadores, valem praticamente nada. Flávio não estabelece as diretrizes econômicas para o país. Não tem autoridade nem poder para articular com qualquer nação. Se tentar se meter nas tentativas de harmonização dos poderes, poderá ser repreendido: quem é você para se meter nessa conversa? Ou seja, ele é apenas um pré-candidato da oposição que se transformou no principal adversário de quem está hoje no Palácio do Planalto. Principal, mas apenas um entre um batalhão de pretendentes.

Afinal, quem é o presidente?

Como é que pode, então, Lula querer terceirizar ao seu opositor a culpa pelo tarifaço pretendido pelos Estados Unidos? Se o governo, com todo o aparato de recursos e poder à disposição, não consegue, após meses de negociação e concessões, que pouca gente sabe quais são, sensibilizar os americanos para colocar um freio nessa taxação que prejudicará o país, como pode culpar Flávio pelos erros que ele não cometeu?

Cá entre nós, se Flávio tivesse mesmo essa condição excepcional de persuadir Trump a aumentar as tarifas para importação dos produtos brasileiros, deveria ser o presidente do país. Mas não é. E, segundo suas próprias palavras, tem insistido junto a Trump para que não tome essa iniciativa.

De quem é a culpa?

Boa parte da imprensa faz coro com Lula. Afirma que já no primeiro parágrafo da carta enviada por Trump no ano passado, impondo sobretaxas de 50%, havia uma defesa de Bolsonaro e críticas ao STF. Que o julgamento do ex-presidente seria uma caça às bruxas. E que essa teria sido uma das causas das medidas econômicas adotadas. O que Flávio tem a ver com isso?

Por outro lado, embora Lula conte vantagem sobre sua ligação com Trump, quando sobe no palanque para agradar sua bolha de eleitores, desce a marreta no presidente americano. Sentiu o gosto de ter conquistado alguns pontos nas pesquisas de intenção de voto quando agiu assim no ano passado. Por isso, quer repetir a dose.

Ainda no palanque

Como se estivesse discursando nas portas das fábricas ou diante da multidão que lotava o Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, nos anos 1970, fala o que vem à cabeça, aparentemente sem se importar com as consequências de suas bravatas. Em reunião com ministros, afirmou: “Trump foi eleito pelo povo americano e eu respeito o resultado eleitoral americano. Eu fui eleito pelo povo brasileiro, ele tem que respeitar o voto do povo brasileiro. Eu não fui eleito imperador da América Latina e muito menos Trump foi eleito imperador do mundo”.

Mas não estavam em tratativas?

Se não bastasse essa rispidez, disse que o secretário de Estado dos Estados Unidos, descendente de cubanos, Marco Rubio, é um latino-americano frustrado. Qualquer aspirant ao Itamaraty sabe que questões delicadas com um dos mais poderosos parceiros comerciais do Brasil não se resolvem dessa forma, mas sim com muita conversa e negociação.

Esse destempero talvez até renda algum ganho nas pesquisas eleitorais, mas é péssimo para o país. E mais: se o governo sempre disse que estava em tratativas com os americanos desde o dia em que Lula visitou Trump, como pode alegar agora que foi pego de surpresa pela decisão? Das duas uma: ou não havia química nenhuma entre os dois presidentes, ou essas conversas entre os dois governos não existiram ao longo desse tempo.

Onde está a química?

Um exemplo perfeito de dilema, pois tanto em um caso quanto no outro terão de ajoelhar no milho no canto da sala. São indícios eloquentes de que a diplomacia brasileira não está conseguindo resultados com as atitudes que tem tomado. Tudo indica que as questões ideológicas podem estar enevoando o caminho das soluções desejadas.

A frase é antiga e batida, mas muito adequada para a situação atual: dinheiro não aceita desaforo. E, como diz uma de minhas filhas, se for em dólar, menos ainda.

Algo precisa ser feito, e rapidamente. Nessa troca de acusações entre os pré-candidatos, só há um perdedor: o povo brasileiro. Siga pelo Instagram: @polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.



Fonte: Jovem Pan