Mais de 100 pontos da Região Metropolitana têm internet explorada pelo crime organizado

Rio das Pedras (foto) é umas comunidades que tem a comercialização de internet explorada pelo crime — Foto: Márcia Foletto/06-10-2023

Maior parte dos casos está concentrada no município do Rio de Janeiro

Uma das principais fontes de lucro do crime organizado no estado, a venda irregular de internet entrou na mira da polícia. A Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública informou, nesta terça-feira, ter identificado mais de cem pontos da Região Metropolitana do Rio onde este tipo de negócio é explorado por grupos criminosos com auxílio de empresas que trabalham para o tráfico e para a milícia. Enquanto isso, alguns moradores de áreas próximas a comunidades optaram por fazer a conexão a rede mundial por satélite para escapar da ação dos criminosos.

Com preços um pouco acima do mercado, os planos de internet via satélite variam entre R$ 176 e R$ 401 mensais, fora o custo do equipamento. Apesar de ser mais cara, a opção tem sido cada vez mais usada. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável por organizar e fiscalizar os serviços de banda larga, a venda de sinal transmitido por satélite no município do Rio passou de 3 mil clientes, em março de 2025, para 6,2 mil assinantes no mesmo mês de 2026. Foi o que fez, por exemplo, uma moradora de um bairro da Zona Norte do Rio, que conta com áreas sob forte influência do Comando Vermelho (CV).

A comunidade da Muzema, na Zona sudoeste do Rio — Foto: Custodio Coimbra/25-05-2021

— Tínhamos o serviço de uma operadora desde 2015. Um dia, acordamos sem internet nenhuma. Entramos em contato com a empresa, que identificou que todos os cabos de internet haviam sido cortados na noite anterior. Isso já tem mais ou menos dois anos. Eles também disseram que os técnicos estavam sendo ameaçados pelos traficantes. Não podiam subir nos postes porque seriam derrubados das escadas, ou eles nem deixavam os carros da operadora chegarem aos pontos de acesso danificados, sob risco de morte. Precisamos recorrer a outro tipo de internet. Cancelamos nossa assinatura e, para não aceitar a internet que os traficantes de uma comunidade próxima permitiam, recorremos a outro tipo de internet, que não depende de cabos e é via satélite — disse a moradora.

A maioria dos mais de cem pontos identificados pelo setor de inteligência da Secretaria de segurança fica em comunidades localizadas no município do Rio, na Baixada Fluminense e ainda em São Gonçalo. A s informações apuradas pela pasta serão repassadas para abastecer investigações sobre a atuação dos criminosos, feitas por delegacias distritais e por unidades especializadas. Em áreas dominadas por bandidos, empresas oficiais são proibidas de realizar manutenções ou novas instalações. A partir daí, os grupos ilegais passam a explorar o serviço de internet e de tv cabo, entre outros.

Nesta terça-feira, uma moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, contou estar há quatro dias sem sinal de internet em casa. Ao ligar para uma operadora de telefonia, ela contou ouvir sempre a mesma resposta. Do outro lado da linha, uma secretária eletrônica diz que os técnicos da empresa estão impossibilitados de acessar sua região por problemas de “segurança pública”. A moradora não é a única que ficou desconectada pelo motivo alegado.

O município é o nono colocado em um ranking de 15 cidades com mais denúncias recebidas pelo Disque-Denúncia (2253-1177), informando que o crime organizado tem explorado a comercialização do acesso à rede mundial de computadores.

Segundo a Subsecretaria de Inteligência, só nas localidades da Muzema e Rio das Pedras, no Itanhangá, e na Gardênia Azul, em Jacarepaguá, a pasta identificou 18 empresas explorando o serviço. A primeira e a terceira têm regiões controladas pelo tráfico, enquanto a segunda está sob o jugo da milícia. Estima-se que os grupos criminosos arrecadem mensalmente R$ 3 milhões com o negócio irregular. As três áreas constam no plano de reocupação territorial enviado pelo governo estadual ao Supremo Tribunal Federal.

Fonte: Extra