O Grupo Nexco, distribuidor intermediário da fintech Naskar no Distrito Federal, decidiu processar a empresa após o “sumiço” dos sócios e o atraso nos pagamentos aos clientes. Como revelou o Metrópoles na última sexta-feira (8/5), a Naskar não responde os investidores há quatro dias, e o app da fintech não funciona desde então.
Para o Nexco, o fato de a Naskar nunca ter atrasado pagamentos, somado à falta de transparência dos três sócios sobre o problema, levou a distribuidora a processar a empresa, que é sediada em São Paulo. “O problema deixou de ser apenas um atraso e se transformou em uma crise de confiança e de informação”, afirma.
O objetivo da ação judicial é manter resguardados os recursos dos clientes do Nexco e forçar a Naskar a explicar o que vem acontecendo. A empresa estima que cerca de 1.250 pessoas, entre investidores e colaboradores, tenham sido afetadas com a situação. Somado, o prejuízo estimado destes cidadãos é de aproximadamente R$ 288 milhões.
“Tão logo a gravidade da situação foi verificada, o Nexco acionou seu corpo jurídico para dar suporte aos parceiros e clientes”, completa. O grupo procurou ainda pessoas físicas que possam ter sido lesadas para integrar o processo de forma conjunta.
“O Grupo Nexco lamenta profundamente o ocorrido. A companhia acreditou na operação apresentada pela Naskar, assim como seus clientes, colaboradores e diretores. Diante do atraso inédito, da frustração das expectativas de pagamento e da falta de transparência dos sócios da empresa, a via judicial foi a medida necessária para buscar esclarecimento, responsabilização e resguardo de direitos”, conclui a empresa.
Entenda o caso
- A Naskar Gestão de Ativos chegou a ter sede no DF e, mais recentemente, tinha endereço fixo em São Paulo (SP). A empresa é apresentada como fintech (instituição de serviços financeiros que apresenta facilidades aos clientes frente a bancos tradicionais);
- A Naskar atuava captando recursos de clientes com retorno de 2% ao mês, valor bem acima do operado pelo mercado;
- Para se ter um exemplo, se uma pessoa investisse R$ 1 milhão, receberia R$ 20 mil mensais pagos pela fintech, enquanto a empresa se comprometeria a cuidar do patrimônio investido pelo cidadão;
- A financeira atuou por 13 anos sem que houvesse notícias apontando problemas com os clientes. Até que, no início da última semana, o pagamento mensal de rendimentos, que era previsto para segunda-feira (4/5), não foi realizado;
- Os clientes buscaram entender o que estava acontecendo e não obtiveram resposta concreta até o momento.
Em nota atualizada na tarde da última sexta-feira (8/5), a Naskar alegou ter identificado “inconsistências na base de dados” e prometeu normalização “o mais breve possível”.
“A Naskar informa que iniciou um processo interno de auditoria após identificar inconsistências em sua base de dados. As equipes técnicas seguem atuando na revisão e validação das informações para garantir segurança e precisão no tratamento dos dados. Os clientes serão atualizados o mais breve possível”, afirma a fintech.
Naskar guardava R$ quase 1 bilhão de clientes
A fintech em questão “desapareceu” com mais de R$ 900 milhões de cerca de 3 mil clientes de todo o país. A empresa tem três sócios: Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o ex-jogador de vôlei e apresentador de TV Maurício Jahu.
Para se ter ideia da gravidade da situação, um único empresário investiu R$ 3,9 milhões na Naskar; um bancário aplicou R$ 2,3 milhões; e um aposentado aportou R$ 1 milhão. Todos os exemplos são de moradores do Distrito Federal.
O site Reclame Aqui tem reunido, ao longo dos últimos dias, diversas reclamações por parte de clientes. “Estou sem acesso ao app, não recebi rendimentos e não tenho nenhuma reclamação”, escreveu uma mulher. “A Naskar Holding bloqueou acesso ao app. Tenho valores investidos e não consigo resgatar”, assinalou outro investidor.
“Minha vida acabou”
Um dos motivos para que os clientes não desconfiassem da Naskar e que conferia um ar de legalidade à operação era a disponibilização do informe de rendimentos para declaração de Imposto de Renda. O documento era enviado todos os anos para quem tinha recursos custodiados pela empresa.
Após as reportagens publicadas pelo Metrópoles, alguns clientes entraram em contato relatando perdas que chegam a cifras milhonárias. Um dos moradores da capital que tem dinheiro guardado na Naskar e está aflito para saber o que aconteceu é o empresário Wesley Albuquerque, 40 anos. Além de ter grande investimento na fintech, ele fazia captação de pessoas para a empresa por meio de um contrato de prestação de serviços, o que tem redobrado a preocupação.
Wesley já captou 135 clientes para a Naskar. Somado, o montante investido pelas pessoas convidadas pelo empresário chega a R$ 47 milhões.
“Tenho uma empresa focada em consórcios. Seis anos atrás, a Naskar entrou em contato conosco, apresentou a empresa e foi provando que era digna de confiança”, relembra o empresário brasiliense. “A nossa confiança foi aumentando cada vez mais a ponto de eu deixar todo o meu dinheiro lá”, comenta.
Conquistado pelos altos retornos e pela credibilidade da Naskar à época, Wesley sugeriu que a própria mãe virasse cliente. “Minha mãe vendeu uma casa, e recomendei a ela que investisse lá. Falei: ‘Olha, mãe, meu dinheiro está todo lá, vai ser bom para você investir e ficar usando o retorno como aposentadoria’. Agora, com esse sumiço, minha mãe não tem reserva, não tem dinheiro mensal, não tem aposentadoria, não tem nada.”
Tenso e sem esperanças, Wesley tenta dimensionar o quão afetado ficou com a situação. “Estou me mantendo à base de medicamentos desde segunda-feira (4/5). Já chorei. Minha mulher não dorme. Estou quebrado, minha vida acabou.”
A Polícia Civil do DF (PCDF) investiga o caso.
Fonte: Metrópoles











