O ministro Gilmar Mendes assumiu uma tarefa ingrata. O atual decano do STF puxou para si o protagonismo e assumiu a linha de frente no embate com a imprensa, com o Congresso e com qualquer outro crítico da Corte.
O movimento coincide com a resistência interna da ala pragmática do Supremo ao atual presidente do tribunal, Edson Fachin, e com o vácuo deixado pelo próprio Fachin, que resiste a colocar a mão no fogo pelos colegas.
A investida de Gilmar também acontece no momento em que o ministro Alexandre de Moraes, protagonista do Supremo desde 2019, precisou submergir após ver seu nome dragado para o escândalo do Caso Master.
Até então, Moraes figurava como personagem principal no STF, por aguentar a pressão de ser o relator da “trama golpista” e por encarnar o papel de inquisidor-mor do bolsonarismo durante e depois do governo Bolsonaro.
Após a imprensa divulgar que a esposa de Moraes tinha um contrato de R$ 129 milhões com Daniel Vorcaro, Gilmar assumiu a tarefa de se expor mais diretamente e defender seus colegas de Corte, retribuindo gentilezas passadas.
Foi Moraes que, em 2019, se colocou na linha de tiro ao suspender investigações da Receita Federal sobre Gilmar e sua então esposa, a advogada Guimar Mendes, afastando auditores do órgão e paralisando eventuais apurações.
Gilmar também é especialmente grato ao ministro Dias Toffoli. Em 2019, enquanto presidente do STF, Toffoli abriu o polêmico inquérito das fake news, justamente em um momento que o atual decano era um dos alvos das críticas.
Estratégia defensiva
A retribuição de gentilezas de Gilmar vai além dos pedidos de investigação e da rodada de entrevistas que ele tem dado para contra-atacar os críticos do STF. O decano também assinou decisões que ajudaram seus colegas.
Foi Gilmar, por exemplo, quem impediu que os sigilos da Maridt, empresa da família de Toffoli chegassem à CPI do Crime Organizado no Senado e, consequentemente, vazassem para a imprensa que cobria a comissão.
Independentemente das relações comerciais com o Banco Master, os documentos iriam expor Toffoli, de forma semelhante ao que aconteceu com Vorcaro e com Fábio Luís da Silva, o Lulinha, na CPMI do INSS.
O decano do STF também assumiu o dever de comprar a briga com o relator da CPI do Crime, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que pediu o indiciamento de Toffoli, de Moraes e do próprio Gilmar eu seu relatório final.
Foi Gilmar quem acionou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pedindo investigação contra Vieira. É ele também quem espalha a tese de que o senador não estaria protegido pela imunidade parlamentar neste caso.
As entrevistas de Gilmar
O ministro tem se dedicado ainda a defender a Corte diante das acusações de relações com Vorcaro. Nas últimas semanas, ele agendou entrevistas com os principais veículos de comunicação do país. Entre eles, o Metrópoles.
Em entrevista ao Jornal da Globo, por exemplo, Gilmar culpou a imprensa, e não seus colegas de Supremo ou até mesmo caciques políticos do Centrõa, por levar o Caso Master à Praça dos Três Poderes.
Ele ainda comprou a briga pública com o ex-governador de Minas, Romeu Zema, após o pré-candidato do Novo à Presidência subir o tom em sua plataforma eleitoral contra “abusos” de ministros do Supremo.
Gilmar pediu que Moraes inclua Zema no inquérito das fake news — que virou um balaio de gato, onde cabe qualquer defesa de ministros do STF — por uma propaganda com fantoches representando membros da Corte.
O movimento de Gilmar, na avaliação de integrantes e observadores do Judiciário, foi coordenado com Moraes, Toffoli e Flávio Dino, último integrante do quarteto que dá as cartas no STF.
Fonte: Metrópoles







