Em 1970, opositores da ditadura ensaiaram torcer contra a seleção, mas desistiram

As apresentações de gala da equipe brasileira, que conquistou o tri, no México, encantaram até os mais politizados

ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO – 28/04/1970Brasil,Rio de Janeiro, RJ, 28/04/1970. O presidente da República, Emílio Garrastazu Médici cumprimenta os atletas da Seleção Brasileira que embarca para o México afim de disputar a Copa do Mundo naquele País

A ditadura instaurada no Brasil em abril de 1964 apelava para frases marqueteiras, como: “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Ninguém segura esse país”. Uma canção da época era Eu te amo, meu Brasil, da dupla Dom & Ravel: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil/Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/ Ninguém segura a juventude do Brasil”. Já a música Pra Frente Brasil, de Miguel Gustavo, virou hino da seleção: “Noventa milhões em ação/Pra frente Brasil, do meu coração/Todos juntos vamos, pra frente Brasil/Salve a seleção!!!

O presidente em 1970, general Emílio Garrastazu Médici, é associado ao período mais ferrenho da ditadura. O AI-5, que estava em vigor desde 13 de dezembro de 1968, cerceava as liberdades, autorizava o governo a cassar mandatos, acabava com o habeas corpus e amordaçava os jornais com censura. Eram os “anos de chumbo”, período em que mais se praticou tortura contra os opositores ao regime. 

Esse contexto fez com que torcedores mais ligados à política adotassem uma postura contrária à seleção que iria disputar a Copa, no México. A ditadura aproveitaria a conquista do tricampeonato para se promover e a população seria usada como massa de manobra, o que de fato veio a acontecer. 

Em O Pasquim, semanário alternativo de contestação ao regime, o cartunista Henfil analisava: “O máximo de radicalismo crítico era torcer contra a seleção, como uma forma de protestar contra o esquema repressivo que o governo tinha acionado. (…) Em geral, os escrúpulos da consciência crítica duravam pouco. Ao primeiro ataque bem-sucedido da seleção canarinho, todos viravam torcedores fanáticos”. Foi o que se viu: no decorrer da Copa, com o futebol excepcional apresentado pela seleção, muitos que tinham decidido torcer contra, mudaram de postura e se convenceram de que o futebol era uma coisa e a ditadura era outra bem diferente.

Na época, o governo tentou associar a imagem do presidente Médici ao futebol. Era comum a divulgação de fotos dele nas tribunas dos estádios com um aparelho de rádio colado ao ouvido. Durante a Copa, a publicidade oficial distribuía à imprensa imagens do presidente do chefe de estado assistindo aos jogos da seleção pela TV enrolado na bandeira nacional. 

Uma reportagem “chapa branca” da revista Manchete, publicada na edição comemorativa sobre a conquista do tricampeonato, tinha o seguinte título: “Estado Maior”. Era uma alusão aos militares que faziam parte da comissão técnica da seleção: “O tri não foi conquistado apenas no campo. No México, o Brasil tinha outro escrete, que jogava nos bastidores. Nesse sentido, a administração do time foi perfeita. O comandante era um brigadeiro, Jerônimo Bastos. Um cearense atarracado, porte militar, olhar muito agudo e homem de fino trato. Ele não se intitulou Brigadeiro da Vitória, como poderia, depois do triunfo. Na verdade, tornou o mais impessoal possível a sua missão. Cumpriu-a como brasileiro, pessoa de confiança do presidente da República.” 

Diziam que os militares tinham três projetos: a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói e o tricampeonato mundial de futebol. Depois da conquista, os campeões foram recebidos em Brasília pelo presidente Médici. Em São Paulo, o prefeito Paulo Maluf deu um carro Fusca para cada atleta. 

Dois filmes retratam bem o período da ditadura e a conquista do tricampeonato mundial de futebol: Pra Frente, Brasil, de 1982, dirigido por Roberto Farias, e O ano em que os meus pais saíram de férias, de 2006, dirigido por Cao Hamburger. 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.



Fonte: Jovem Pan