Enquanto terapias modernas transformam o cuidado com a obesidade, regras pouco claras e lacunas de controle podem limitar o acesso e ampliar riscos no Brasil, segundo o médico do esporte Rafael Rivas Pasco
A medicina metabólica evoluiu de forma acelerada nos últimos anos, e esse avanço já impacta diretamente o tratamento da obesidade.
Na prática clínica, novas terapias vêm mudando a forma como a doença é abordada, com atuação mais precisa sobre os mecanismos que regulam o apetite e o metabolismo.
O que mudou na prática com as novas terapias
Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida representam um marco nesse cenário. Eles atuam em vias centrais do organismo, com resultados consistentes demonstrados em estudos clínicos robustos.
Trata-se de uma mudança relevante em relação a abordagens anteriores, ampliando as possibilidades de tratamento para uma condição crônica e multifatorial.
No entanto, enquanto a ciência avança em ritmo acelerado, a regulação e a prática clínica nem sempre acompanham na mesma velocidade. Esse descompasso começa a gerar desafios concretos.
O que os Estados Unidos fazem de diferente
Nos Estados Unidos, sob supervisão da Food and Drug Administration, existe uma distinção clara entre medicamentos industrializados e preparações magistrais individualizadas.
Esses modelos, conhecidos como 503A e 503B, permitem que determinadas terapias sejam utilizadas em ambientes estruturados, com controle de qualidade, rastreabilidade e acompanhamento médico adequado.
No Brasil, a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária é essencial para garantir a segurança sanitária. Ainda assim, quando se trata das novas abordagens da medicina metabólica, especialmente no uso de peptídeos, persistem zonas de incerteza regulatória.
Os dois problemas que surgem quando a regra não acompanha a ciência
Na prática, esse cenário se traduz em dois problemas centrais. De um lado, há limitação de acesso a estratégias terapêuticas que já estão consolidadas em outros países. De outro, observa-se a circulação de substâncias sem padronização, controle ou supervisão adequada.
A obesidade é uma doença crônica, com base biológica bem estabelecida, e seu tratamento exige mais do que orientação comportamental. Exige uma abordagem médica estruturada, baseada em evidência.
O desafio, portanto, não está apenas em incorporar o novo, mas em garantir que essas inovações sejam utilizadas com critério, segurança e responsabilidade.
O Brasil não carece de capacidade médica. O que ainda precisa avançar é a integração entre ciência, regulação e prática clínica.
Porque inovação, sem estrutura, não representa avanço. Representa risco.
Dr. Rafael Rivas Pasco – CRM/SC 15495 | RQE 15.008
Médico do Esporte
Membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE)
Membro da Brazil Health
Fonte: Jovem Pan




