Suspensa a “morte de uma civilização”; Trump merece repúdio, não piada

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Donald Trump decidiu adiar por mais duas semanas a, como ele mesmo definiu, “morte de uma civilização” Foi essa a ameaça que fez ao Irã. Muitos dirão: “Olhe aí, ele recua de novo; esse cara não é de nada!” O presidente dos EUA tem de ser motivo de repúdio, não de escárnio. Suas opções são fanaticamente homicidas. E, por óbvio, ninguém precisa ser simpatizante da teocracia iraniana para reconhecê-lo. De todo modo, negociações parecem ter se intensificado, e há, vamos dizer, um triplo cessar-fogo: dos EUA, de Israel e do país agredido. Vamos ver.

Alguma justificativa aceitável para o que fizeram Donald Trump e Benyamin Netanyahu até agora? Em momentos assim, sempre há os “contabilistas da morte”, a deitar um olhar revisionista sobre a história, não raro para absolver moralmente os que ordenaram matanças: “Ah, sem tal morticínio, tudo poderia ter sido ainda pior”; “sem as bombas em Hiroshima e Nagasaki, teria morrido muito mais gente”; “sem o bombardeio de Dresden, os alemães teriam resistido mais tempo…” Há os que realmente acreditam que “a guerra é a higiene do mundo”. Sempre há alguém para pintar a sua própria versão de “O Triunfo da Morte” (ilustração; detalhe do quadro), qual um Pieter Bruegel, o Velho, mas movido pelo otimismo da destruição…

A MENTIRA ESSENCIAL
Não vou ficar debatendo sobre pilhas de cadáveres. O que há de inequívoco no caso do ataque ao Irã e na crise que ela desencadeou é a mentira essencial sobre os seus motivos, atestada pelos serviços de Inteligência dos EUA e até por John Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, que renunciou ao cargo no dia 17 de março. E, por favor!, não confundam este senhor com um progressista. Ele não é.

O fato: Trump só empreende uma guerra contra o Irã sem autorização do Congresso porque alega que aquele país representa uma ameaça existencial aos EUA. Há essa brecha, onde encaixou suas mentiras. O país que é alvo de seu desatino não estava prestes a fazer a bomba nem a ter mísseis balísticos intercontinentais. Como acontece nestes tempos por lá, o candidato a tirano botou o FBI nos calcanhares do novo desafeto.

A democracia norte-americana se degrada de maneira espantosa. Até onde vai?

O QUE “ELES” NÃO TÊM
E não! Como já escrevi aqui: não é possível recorrer à Suprema Corte dos EUA com uma Adin — Ação Direta de Inconstitucionalidade — com pedido de liminar para que cesse a prática ilegal do presidente, que afronta a Constituição. Num prazo médio ou longo, quando muita gente já estiver morta, quem sabe chegue aos nove juízes um recurso oriundo de algum tribunal federal… Ah, quanto sangue custa não haver um STF nos EUA!

Não quero escandalizar ninguém… Mas vejam que coisa: até o “Centrão” faz falta por lá, não é mesmo? Afinal, por aqui — no “Bananão”, como chamava Ivan Lessa; ou Banânia, como já chamei, brincando com a Kakânia de Musil —, não tem essa de bancada do Senado ser X ou Y. Com ironia? Pois não! Centrão do Congresso contra a polarização… Fiquem tranquilos: não vou defender as emendas impositivas nem aqui nem lá (não as há); estas só atrapalham. Mas o fato é que a turma do “meião” também pode livrar o país de “diabólicos azares”, como escreveu o poeta. No caso, livraria o mundo.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt tocaram na questão no prefácio da edição brasileira do livro “Como Salvar a Democracia” (Companhia das Letras) — e eles se referem à americana. Comparam:

“(…) Por que essa divergência entre Estados Unidos e Brasil? Um dos fatores é a força dos partidos políticos e das identidades partidárias. Nos Estados Unidos, políticos de direita têm apenas um veículo: o Partido Republicano. E, como Trump continua sendo a força dominante no Partido Republicano, qualquer político de direta que tenha ambições precisa preservar boas relações com ele. No Brasil, onde os partidos e as identidades partidárias são mais fracos, políticos de direita têm suas próprias bases independentes, o que lhes dá maior autonomia.”

Então não é que certo tipo de fraqueza pode ser força? O deputado Arthur Lira (PP-AL) mereceu menção no prefácio. Os autores notam que o então presidente da Câmara reconheceu de pronto a vitória de Lula, embora fosse da base bolsonarista, enquanto as principais lideranças trumpistas apoiavam o movimento golpista do seu próprio celerado.

SÓ RETÓRICA?
Bombardeios destroçam pessoas, destroem cidades e infraestrutura, queimam a lavoura. Pode parecer que a retórica não. Mas isso é mentira. A cada vez que Trump encobriu os corpos dos palestinos assassinados por Netanyahu com palavras abjetas — entre a impiedade em estado puro e suas tentações imobiliárias —, estabelecia um novo umbral a ser ultrapassado. E assim se implementaram medidas de limpeza étnica, não levadas ao extremo até agora porque a dupla não conseguiu, afinal, um lugar para alojar aqueles pobres desgraçados — e, sim, desgraçados também em razão da atuação insana do Hamas. Mas esperavam o quê? Alguma simpatia pelos “libertadores” que os abatiam até na fila da comida?

Ao “adiar” “a morte de uma civilização”, Trump exaltou seus feitos mais uma vez e disse que os 10 pontos apresentados pelo Irã nesta segunda, que ele próprio havia considerado insuficientes, são uma base de negociação. Os iranianos cantam a própria vitória e anunciam a reabertura de Ormuz nesse período de 15 dias, sob a supervisão de suas Forças Armadas. Sabe-se que entre os pontos que o regime quer negociar está a suspensão de todas as sanções de que o país é alvo. Mas nada se sabe sobre a continuidade ou não de seu programa nuclear.

Assim como os contabilistas dos “massacres virtuosos” justificam qualquer disparate sangrento, também o trumpismo guerreiro, inclusive por aqui, vai enxergar genialidades no modo de o biltre fazer as coisas: “Ah, olhem lá, o Irã está menos poderoso agora do que antes.” Pois é. E a que extremo se levou a desordem mundial? E com que propósito? Ainda que se chegue a um acordo daqui a 15 dias, quem estará mais seguro?

Fonte: Metrópoles