Bem, caras e caros — e “cares” sempre bem-vindes… —, eles estão de volta! O tal Jim Jones — ops! Jim Jordan —, um trumpista amalucado que preside o Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (mais ou menos a Comissão de Constituição e Justiça da nossa Câmara), resolveu fazer mira de novo em Alexandre de Moraes, que estaria a ameaçar a liberdade de expressão de norte-americanos e de residentes naquele país, o que interferiria nas eleições no Brasil. Eu sei que isso não parece fazer muito sentido — e, com efeito, não faz. Ainda que não houvesse aí uma lacuna lógica, estaríamos diante de uma mentira escancarada. O que, afinal, eles não podem cometer por aqui sem punição, exceto crimes?
O Brasil tem hoje instituições mais avançadas do que a tal “América”. Os bacanas — que, como escreveu o poeta Leminsky, “têm carro, têm grana, e a grama é bacana” — sempre dependeram demais do tal “princípio da confiança”. Os controles podiam ser mais ou menos frouxos porque ninguém ousaria desrespeitar a tradição e os costumes. Nixon cruzou uma linha e caiu. Trump ultrapassou todas e foi reeleito, mesmo depois de ter incentivado e tentado um golpe. Sem um STF por lá que exerça efetivamente o controle abstrato de constitucionalidade, tudo passa a ser possível. Sem um TSE que casse o direito de delinquentes que violam as regras… Bem, o resultado vocês conhecem.
Pois é… Um novo papelucho acusa o terrível “Xandão” de promover censura, sustentando que a gloriosa família Bolsonaro está tendo tolhida a sua liberdade de expressão. Qual? Em que caso? O que exatamente eles gostariam de fazer e não estão fazendo porque temem o que chamariam de “represália da Justiça”? Carlos, por exemplo, ambicionaria, sei lá, publicar alguma foto de seus desafetos da extrema direita a praticar “remo holandês”? Onde está a censura?
Não interessa. Eduardo logo pegou a deixa. Prometeu fazer o “gugu-dadá” com o trumpismo e disse que vai denunciar qualquer ameaça que o TSE faça à liberdade de expressão, atribuindo aos EUA o papel de gerentes do nosso desassossego. Está em linha com o discurso do irmão, o presidenciável Flávio, no tal Cepac: garantiu, se eleito, a doação das nossas terras raras para os imperadores do norte, contra a China — que, afinal, “não é judaico-cristã” — e cobrou que “uzamericânu” gerenciem as nossas eleições. Como é? Santo Deus” Eles não conseguem fazer com que as urnas de Wyoming conversem com as de Montana, e as desses dois Estados com as de Idaho, sempre havendo o risco de que sejam atacadas por algum lobo de Yellowstone (imagem)… Gerentes de quê?
Já demonstrei aqui que, em sua fala no Cepac, Flávio deu a entender que pode não reconhecer a derrota, caso ela venha. Em linha com o irmão Eduardo, que já antevê que terá problemas com o TSE. Vale dizer: o Zero Três antecipa uma realidade que dará um jeito de fazer acontecer. Parece anunciar: “Quer apostar que esses caras vão tentar punir nossos crimes eleitorais? São tão autoritários…”
SOBERANIA DE VOLTA
Eu sei lá se o PT e Lula conseguirão fazer de modo eficaz o debate da soberania. Mas este foi devolvido de maneira evidente ao debate político. Talvez nem seja tão esperto eles reeditarem essa história… Ocorre que esses caras têm uma natureza. E ela pode, eventualmente, ser até mais forte do que seu interesse objetivo. O próprio Eduardo, ora muito confiante na vitória, concedeu uma entrevista em novembro passado afirmando que podem, sim, perder, mas o importante é conservar, vamos dizer, a “pureza”.
Geraldo Alckmin, vice-presidente, concedeu uma coletiva-café nesta quinta. Afirmou que os que não aceitam a democracia não deveriam nem mesmo participar de eleições. Ele tem razão. Mas o caminho da extrema direita é, obviamente, outro: recorre aos instrumentos institucionais para, se vitoriosa, destruir as instituições, e daí deriva o declínio da qualidade da democracia em todo o mundo. Observem como a dita “direita democrática” se cala a respeito. Eduardo Leite ensaiou alguma resistência, mas já está lá, disposto a ajudar Ronaldo Caiado, aquele que prometeu anistiar os golpistas, buscando tirar de Flávio o monopólio do ataque às instituições. É um despropósito.
“SERÁ QUE PEGA?”
Sim, a soberania está de volta ao debate. Se a coisa “pega” ou “não pega”, não sei. No documento de 531 páginas do escritório de representação comercial dos EUA, há oito dedicadas ao Brasil. Lá está o Pìx como uma suposta evidência de nossa, do Brasil, “deslealdade” com empresas norte-americanas. Nesta quinta, Lula ensaiou um “o Pix é nosso, é gratuito, e ninguém tasca”. Vamos ver. Fato: até hoje, não houve um só pré-candidato da direita com algum vulto eleitoral que tenha criticado as tarifas de Trump ou seus arreganhos contra a nossa soberania.
Edson Fachin, depois daquela patuscada em que procurou alimentar a indisposição “das massas contra o STF”, divulgou uma mensagem quilométrica respondendo ao ataque desferido pelo fascistoide Jim Jordan. Escreveu demais, como quem dá explicações à gerência. Teria bastado uma linha: “O Brasil é soberano, e o STF não deve satisfações a uma nação estrangeira”. Mas isso, certamente, pareceria simples e claro demais.
Fonte: Metrópoles




