Pilar, personagem interpretada por Isabel Teixeira em Quem Ama Cuida, vem chamando a atenção do público por seu comportamento cruel, controlador e manipulador.
Na trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, a personagem é descrita como uma mulher amargurada, invejosa e ambiciosa, que mantém uma relação conflituosa com familiares e não mede esforços para alcançar seus objetivos.
A vilã também demonstra necessidade de controle sobre as pessoas ao seu redor e utiliza diferentes estratégias para conseguir o que deseja. Em uma das relações mais recentes, inclusive, a própria atriz Isabel Teixeira definiu a dinâmica de Pilar como uma situação em que alguém que acredita estar manipulando também pode acabar sendo manipulado.
Mas Pilar é narcisista?
A resposta, segundo a psiquiatria e pesquisadora Camilla Nicolucci, exige cuidado. Uma personagem pode apresentar características compatíveis com determinados padrões de personalidade, mas isso não significa que seja possível estabelecer um diagnóstico clínico.
O termo narcisismo costuma ser usado no cotidiano para definir pessoas consideradas egocêntricas, vaidosas ou que gostam de chamar atenção. Na psiquiatria, porém, o conceito é muito mais complexo.
Além de vaidade
O Transtorno de Personalidade Narcisista envolve um padrão persistente de grandiosidade, necessidade de admiração e dificuldade de reconhecer ou considerar as necessidades e sentimentos das outras pessoas.
“O narcisismo não deve ser reduzido à vaidade ou ao desejo de se destacar. Na prática clínica, estamos falando de um padrão de funcionamento da personalidade, que envolve diferentes aspectos da forma como a pessoa percebe a si mesma, os outros e os relacionamentos. Por isso, algumas atitudes isoladas não são suficientes para estabelecer um diagnóstico”, explicou.
Necessidade de controle
Um dos elementos que mais chamam atenção em Pilar é a tentativa constante de interferir na vida de outras pessoas. Pilar procura controlar situações, relações e decisões familiares para preservar seus interesses.
Esse comportamento pode aparecer em diferentes tipos de personalidade e, isoladamente, não caracteriza narcisismo. O contexto e a frequência das atitudes são fundamentais para qualquer avaliação clínica.
“A necessidade excessiva de controlar pessoas e situações pode aparecer em diferentes padrões de funcionamento psicológico. Quando analisamos uma possível característica narcisista, é importante observar se existe um padrão persistente, como dificuldade em aceitar contrariedades, necessidade de manter uma posição de superioridade ou utilização recorrente dos relacionamentos para alcançar objetivos pessoais”, afirmou.
A inveja da personagem
Pilar demonstra ressentimento em relação ao irmão Arthur e acredita que não recebeu as mesmas oportunidades que ele. A personagem carrega uma sensação de injustiça e demonstra incômodo diante do sucesso e dos privilégios atribuídos a outras pessoas.
A inveja pode fazer parte de determinados padrões narcisistas, principalmente quando o sucesso do outro é percebido como uma ameaça à própria autoestima.
“A inveja pode estar presente em alguns funcionamentos narcisistas, principalmente quando a pessoa estabelece comparações constantes e sente que o sucesso do outro diminui o seu próprio valor. Mas é importante lembrar que sentir inveja ou ressentimento, em algum momento da vida, é uma experiência humana. O que diferencia um padrão clínico é a persistência e a forma como isso interfere nos relacionamentos e no funcionamento da pessoa”, explicou.
Manipulação não significa transtorno
Pilar frequentemente utiliza informações, relações e conflitos familiares para atingir seus objetivos. Na novela, a personagem chega a orientar familiares sobre como agir em depoimentos contra Adriana, protagonista interpretada por Letícia Colin.
A manipulação pode ser um comportamento associado a diferentes condições psicológicas, mas também pode aparecer em pessoas que não apresentam nenhum transtorno mental.
“Manipular alguém significa utilizar estratégias para influenciar o comportamento ou a decisão dessa pessoa em benefício próprio. Esse comportamento pode aparecer em diferentes contextos e não permite, sozinho, concluir que alguém tenha um transtorno de personalidade. O diagnóstico exige uma avaliação ampla e a identificação de um padrão estável de funcionamento”, esclareceu a psiquiatra.
Falta de empatia merece atenção
A dificuldade em reconhecer o sofrimento ou as necessidades dos outros também é uma característica que pode aparecer em determinados padrões narcisistas. No caso de Pilar, esse aspecto fica evidente na maneira como ela trata pessoas que considera obstáculos para seus objetivos.
A personagem parece priorizar seus próprios interesses mesmo quando suas decisões provocam sofrimento em outras pessoas.
“A empatia envolve a capacidade de reconhecer e considerar o estado emocional do outro. Em alguns quadros de personalidade, essa capacidade pode estar prejudicada. No entanto, novamente, não devemos transformar uma característica comportamental em diagnóstico. É necessário observar o conjunto de comportamentos e a história de funcionamento daquele indivíduo”, ressaltou Camilla Nicolucci.
O narcisista pode parecer vulnerável
Existe uma ideia de que o narcisismo está sempre relacionado a pessoas extremamente confiantes e que se consideram superiores. Na realidade, a dinâmica pode ser mais complexa.
Por trás de comportamentos de superioridade, necessidade de controle ou busca por reconhecimento podem existir insegurança e uma autoestima bastante dependente da validação externa.
“O funcionamento narcisista não significa necessariamente uma pessoa que se sente bem consigo mesma o tempo inteiro. Muitas vezes, existe uma autoestima vulnerável, que depende muito da maneira como a pessoa é reconhecida pelos outros. Críticas, rejeições ou situações que ameaçam a imagem que ela tem de si podem gerar respostas intensas”, relatou.
Não é possível diagnosticar Pilar
A partir do comportamento apresentado na novela, Pilar reúne algumas características que podem lembrar traços associados ao narcisismo, como necessidade de controle, dificuldade em lidar com o sucesso alheio, manipulação e aparente falta de empatia.
Isso, porém, não permite afirmar que a personagem tenha Transtorno de Personalidade Narcisista. Na vida real, um diagnóstico depende de avaliação clínica detalhada, considerando a história, a duração dos comportamentos e o impacto deles na vida da pessoa.
“Podemos dizer que Pilar apresenta comportamentos que dialogam com alguns traços narcisistas, mas seria inadequado transformar a análise de uma personagem em um diagnóstico psiquiátrico. Na prática clínica, o diagnóstico depende de uma avaliação individual e aprofundada. A ficção pode ajudar o público a reconhecer determinados comportamentos, mas não substitui uma avaliação profissional”, concluiu a médica.
A personagem de Quem Ama Cuida funciona, portanto, como um retrato ficcional de comportamentos que podem despertar discussões sobre personalidade, manipulação, inveja e necessidade de controle. A análise psiquiátrica, entretanto, exige separar aquilo que é recurso narrativo daquilo que, na vida real, seria considerado um padrão clínico.
Fonte: Metrópoles



















