Belo Horizonte — Duas mulheres procuraram a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) nesta quinta-feira (6/8) para fazer uma representação criminal contra um gerente de academia do bairro Santa Mônica, na Região de Venda Nova, em Belo Horizonte, acusado por elas de praticar atos de gordofobia. Uma terceira mulher também disse que irá à polícia.
O caso ganhou repercussão nas redes sociais após o relato da técnica em enfermagem Dayane Magalhães de Oliveira, de 34 anos, que disse ter sido ofendida pelo homem no trânsito. Desde então, outras mulheres passaram a relatar episódios semelhantes. São, pelo menos, três casos.
Dayane afirma que o primeiro episódio aconteceu há cerca de dez anos. Na época, ela decidiu não denunciar o caso. “Eu me calei. Fiz uma cirurgia bariátrica porque pensei: ‘Se um dono de academia está me chamando dessa forma, é a hora de procurar ajuda mesmo’”, contou.
Segundo o relato, na última quinta-feira (30/7), ela voltou a encontrar o suspeito, Marcelo. “Eu parei numa parada obrigatória. Ele olhou com um olhar de raiva, bateu no capô do meu carro. Não sei se ele me reconheceu ou se viu que era uma pessoa gorda, mas começou a me xingar, me chamando de ‘gorda’, ‘baleia’ e ‘obesa’, enquanto fazia gestos ofensivos”, afirmou.
A mulher disse que abaixou o vidro do carro, respondeu ao homem e informou que iria até a academia para conversar com ele. “Fui até a academia, que ficava um quarteirão à frente, mas ele não apareceu. Eu estava muito nervosa e foi aí que gravei o vídeo“, relatou.
O desabafo publicado nas redes sociais fez com que outras mulheres procurassem a vítima para contar experiências parecidas. “Através do meu vídeo foram aparecendo vítimas atrás de vítimas. Agora estamos procurando a Justiça porque isso precisa parar. Não é uma, duas, três ou quatro mulheres. São várias. Muitas têm medo dele porque dizem que ele faz ameaças. Dessa vez, ele encontrou alguém que resolveu enfrentá-lo”, disse.
Carolina de Giácomo Silva, de 31 anos, foi junto com Dayane na busca pelas autoridades. Ela contou que, em junho, foi surpreendida por um comentário de Marcelo em sua foto: “Quando a bunda é feia não tem filó que esconda”.

Foi então que ela mandou uma mensagem no privado para Marcelo questionando a atitude. “Ele disse que apareceu para ele e, como apareceu para ele, ele tem direito de se expressar. Disse que eu teria lipedema nos glúteos, sendo que eu não tenho essa doença, e ainda falou que eu precisava melhorar muito. Também disse que as pessoas que comentavam nas minhas fotos eram uns ‘machos escrotos’, se referindo ao meu marido”, relatou.
Ela relatou que foi até a delegacia nesta quinta-feira para agendar o atendimento. “Será na segunda-feira, às 14h”, disse.
Ataque na internet
A maquiadora e modelo plus size Jennifer Corrêa, de 32, também contou ter sido sido alvo de comentário gordofóbico feito por Marcelo.
Segundo Jennifer, o episódio ocorreu em maio deste ano, após uma loja de biquínis publicar um vídeo em que ela aparecia como modelo. Nas imagens, a marca mostrava como vestir um biquíni para valorizar corpos gordos. A publicação viralizou e, entre centenas de comentários, ela conta que Marcelo escreveu que o que “valorizaria” seu corpo seria fazer dieta.
“Tudo começou no dia 25 de maio, quando uma loja de biquíni muito grande de BH, onde eu sou modelo, publicou um vídeo mostrando a modelagem de um biquíni. Eles explicavam como vestir a peça para valorizar o meu corpo, representando um corpo gordo. O vídeo viralizou bastante e o Marcelo fez um comentário, em caixa alta, dizendo que o que valorizaria o meu corpo seria eu fazer uma dieta”, lembrou.
Jennifer afirma que o comentário não abalou sua autoestima, já que trabalha com temas ligados à autoestima e à aceitação do corpo e, por isso, diz estar “vacinada” contra esse tipo de ataque.
“O que me choca é a falta de noção das pessoas de invadir o espaço do outro para fazer esse tipo de comentário. As pessoas começaram a criticá-lo e eu até pedi para a loja desativar os comentários. Para mim, o assunto tinha morrido ali”, contou.
Jennifer afirma que só voltou a lembrar do episódio após conhecer o relato de Dayane. “Quando vi o caso da Dayane, entrei por curiosidade no perfil dele e reconheci a foto. Era a mesma pessoa que tinha comentado na minha publicação meses antes. Falei com ela e, depois disso, começaram a aparecer muitas outras mulheres relatando situações parecidas. Agora estamos nos unindo para representar contra ele“, disse.
Ela disse que não compareceu à delegacia nesta quinta-feira, mas que também pretende procurar as autoridades. “Como eu moro em outra cidade, a advogada vai trazer o meu caso para cá. Por isso, eu não fui hoje. Elas fizeram a representação, mas eu também vou à delegacia”, contou.
O que diz o denunciado
A defesa de Marcelo Rocha informou, por meio de nota, que não se recorda de conhecer a Dayane e afirmou que os relatos de ofensas atribuídos a ele não ocorreram.
Segundo a defesa, no local do ocorrido, “ficou claramente demonstrado que o desejo de Daiane era atropelá-lo, pois, se ele não tivesse pulado para a frente, o veículo teria o atingido de forma grave, ocasionando sérios danos físicos”.
A nota acrescenta que Marcelo Rocha apenas gritou que, caso tivesse sido atingido, “iria quebrar o carro todo”. A defesa também afirma que ele “não conhece Dayane, tampouco manteve com ela qualquer litígio há mais de 10 anos, conforme alegado”. Ainda segundo o texto, “a vinculação da academia ao caso é ilegal e difamatória, pois o estabelecimento não possui qualquer envolvimento, já que os fatos sequer ocorreram em suas dependências”. Por fim, informa que medidas legais estão sendo adotadas por calúnia e difamação.
A defesa afirma ainda que Marcelo Rocha não possui condenações criminais e que os procedimentos judiciais existentes já foram resolvidos com as respectivas partes.
Ainda segundo a defesa, Carolina teria ofendido a esposa e vinculado, de forma indevida, a academia à discussão. “Ressaltamos que toda a situação teve início em uma publicação feita por um médico, ocasião em que as partes se desentenderam.”
A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e aguarda um retorno.
Fonte: Metrópoles




