Quem plantou um tomateiro no meio da rua?

Caminhando pela rua com meu neto, encontro um tomateiro no canteiro de uma calçada. Maduros, viçosos, seus frutos não me surpreendem. Talvez tenham brotado de sementes deixadas ali por algum passarinho dias antes. Ou ainda, podem ser obra da moradora risonha de bochechas vermelhas que mora em frente e que observa a todos pela janela da sala. Uma das poucas casas que sobreviveram à fúria imobiliária que assola minha rua.

Ao longo do trajeto, outras estranhezas desviaram minha atenção. Uma orquídea amarrada com barbante florescendo no tronco de uma árvore e um pinheiro descartado passadas as festas de final de ano crescendo isolado no meio do canteiro: não parecem projetos institucionais de plantio, tampouco, obra da natureza. Sem assinatura, são gestos de alguém que os deixou ali para que o acaso cuidesse do restante.

Como urbanista, vício do ofício, acostumei-me a perguntar de onde veio cada árvore.

Por esta razão, entendi que a prefeitura também tem uma espécie de genealogia de plantios. Chega de uniforme, boné, bando de pessoas com roçadeiras ligadas. Mede distâncias, consulta listas de espécies, segue normas. Planta porque a cidade precisa funcionar com método, planejamento e continuidade expondo que a linhagem institucional é transmitida por procedimentos. E isso é o que importa para a prefeitura. Os plantadores anônimos seguem outra tradição. Não recebem ordens nem assinam projetos. Aprendem observando alguém prender uma orquídea ao tronco de uma árvore, transplantar uma muda que já não cabia no vaso ou encontrar um lugar para um pinheiro depois do Natal. Nessa genealogia, o que passa de uma geração para outra não é um protocolo. É um gesto bem-vindo.

Na rua onde cresci havia senhoras especializadas em resgatar mudinhas. Nunca chamavam de roubo.

— Só estou tirando um galhinho.

Satisfeitas, voltavam para casa com um ramo embrulhado em jornal, um broto escondido na bolsa ou uma estaca que, diziam, pegava fácil. Algumas até pegavam. Outras morriam sem explicação, situação que rendia acaloradas discussões nas manhãs de domingo durante a feira.

Hoje acompanho grupos sobre pessoas que saem cedo levando enxadas, mudas, lanches compartilhados e garrafas d’água para todos — plantas e gente. De alguns lembro o nome; outros conheço apenas no momento do plantio. Eram poucos no começo. Anos depois, multiplicaram-se pelas vizinhanças. Ensinaram funcionários terceirizados da prefeitura a roçar sem destruir mudas, recuperaram canteiros, plantaram corredores de árvores e seguiram adiante.

Talvez nem todos se conheçam. Talvez compartilhem apenas a vontade de plantar alguma coisa antes que o domingo termine.

Dias, meses ou anos depois, alguém passa por uma rua qualquer e encontra um tomateiro carregado de frutos, uma orquídea presa ao tronco de uma árvore e, como eu, sorri por um instante, explica ao neto como aquele pedacinho de natureza que deixou a vovó feliz foi parar ali e continua caminhando.

Fonte: Jovem Pan