O mercado imobiliário turístico está passando por uma mudança na forma de comercializar seus empreendimentos. Em vez de apresentar apenas maquetes, plantas e projeções financeiras, empresas do setor têm investido cada vez mais na experiência do consumidor como parte do processo de venda. A estratégia ganhou força com o avanço da multipropriedade e vem transformando a maneira como potenciais compradores conhecem esse modelo de negócio.
A lógica é simples: antes de tomar uma decisão de compra, o cliente tem a oportunidade de conhecer na prática aquilo que pretende adquirir. O turista reserva uma hospedagem, utiliza a estrutura do resort, conhece os serviços disponíveis e, durante a estadia, descobre que pode adquirir uma fração do empreendimento. A decisão deixa de ser baseada apenas em uma apresentação comercial e passa a ser construída a partir da experiência prática.
O movimento acompanha uma mudança observada em diferentes áreas da economia. Cada vez mais pessoas demonstram interesse em utilizar bens e serviços sem necessariamente assumir todos os custos relacionados à posse integral. O modelo já está presente em setores como mobilidade, entretenimento e aviação executiva, e vem ampliando espaço também no turismo.
Na GAV Resorts, por exemplo, a venda realizada dentro dos próprios empreendimentos apresenta desempenho significativamente superior ao modelo tradicional.
Segundo o CEO da empresa, Manoel Gama, a conversão entre hóspedes chega a ser três vezes maior do que a registrada em salas de vendas externas. “A pessoa já conheceu o produto e entende exatamente o que está comprando”, afirma.
Nesse cenário, a multipropriedade surge como uma alternativa para famílias que desejam manter uma rotina de viagens sem os custos permanentes de uma segunda residência. Além do investimento inicial mais acessível, o modelo oferece acesso a estruturas de lazer, hospedagem e serviços que, muitas vezes, seriam inviáveis em uma propriedade individual.
O crescimento do segmento também acompanha a maturidade do próprio mercado. Há pouco mais de uma década, esse formato ainda era pouco conhecido fora de alguns polos turísticos. Hoje está presente em diferentes regiões do país e atrai incorporadoras, investidores e operadores hoteleiros interessados em atender um público que busca previsibilidade de gastos e acesso frequente a destinos de lazer.
Os números ajudam a explicar esse movimento. Dados apresentados durante o ADIT Share 2025, com base em levantamento da consultoria Caio Calfat Real Estate Consulting, mostram que a indústria brasileira de multipropriedade alcançou R$ 92,7 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) potencial em 2025, um crescimento de 16,6% em relação ao ano anterior.
O crescimento também aparece na expansão do modelo pelo país. Em cinco anos, o número de empreendimentos passou de 109 para 216, ampliando sua presença para 97 cidades em 18 estados e consolidando a propriedade compartilhada como uma das frentes mais dinâmicas do turismo imobiliário brasileiro.
O setor também se beneficia do fortalecimento do turismo nacional. Destinos como Gramado, Porto de Galinhas, Maragogi e o litoral do Ceará continuam atraindo investimentos e registrando demanda crescente por hospedagem de padrão elevado. A valorização das viagens domésticas abriu espaço para novos empreendimentos voltados ao lazer familiar e ampliou a concorrência entre grupos que disputam esse mercado.
Hoje, a GAV opera seis resorts no Brasil e possui novas entregas previstas em destinos como Salinópolis, no Pará, Gramado, no Rio Grande do Sul, e Preá, no Ceará. A expansão acompanha um setor que ainda tem amplo potencial de crescimento.
Para Gama, o principal desafio continua sendo ampliar o conhecimento do público sobre a propriedade compartilhada. Embora o modelo tenha avançado nos últimos anos, ele ainda é pouco conhecido por uma parcela dos consumidores brasileiros.
Outro fator que impulsiona o segmento é a valorização do lazer em família. Resorts têm ampliado investimentos em parques aquáticos, recreação infantil, atividades esportivas e atrações voltadas para diferentes faixas etárias. A estratégia busca criar vínculos duradouros com os hóspedes e aumentar as chances de retorno ao destino nos anos seguintes.
A tecnologia também vem assumindo papel estratégico dentro das operações. Ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas em processos de atendimento e relacionamento, enquanto sistemas de automação ajudam a gerenciar uma base crescente de clientes. A expectativa do setor é ampliar a participação dessas soluções nos próximos anos para aumentar a eficiência operacional e tornar a comunicação mais personalizada.
A combinação entre turismo, tecnologia e novos hábitos de consumo ajuda a explicar o avanço da propriedade compartilhada no país. Mais do que vender um imóvel, as empresas buscam oferecer uma alternativa para quem deseja viajar com frequência, planejamento financeiro e acesso a destinos turísticos consolidados.
Em um mercado cada vez mais competitivo, permitir que o cliente conheça o produto antes da compra tem se mostrado um diferencial importante. Para o setor, a aposta é que essa estratégia continue impulsionando o crescimento da propriedade compartilhada nos próximos anos.
Fonte: Jovem Pan




