“femosfera e machosfera”, as duas faces da mesma moeda

Enquanto os homicídios caem no Brasil, os feminicídios sobem. Em 2025, 1.571 mulheres foram mortas por serem mulheres, um aumento de 4% na contramão da queda da violência urbana, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

E não se trata de mera reclassificação. Quando se decompõem as mortes de mulheres, aquelas sem marca de gênero recuam, enquanto os feminicídios seguem crescendo. É como se a letalidade estivesse se refugiando dentro de casa. Não por acaso, entre os autores identificados, quase oito em cada 10 eram companheiros ou ex-companheiros, contra apenas 7% nas demais mortes violentas de mulheres.

O que separa o feminicídio das outras mortes é, precisamente, a intimidade. Nesse cenário, milhões de mulheres buscam na chamada “femosfera” respostas sobre amor e dinheiro. Nem tudo ali é igual: ao lado de alertas vitais sobre relacionamentos abusivos, prospera uma vertente que funciona como espelho da própria machosfera, operando com a mesma lógica essencialista: a romantização do “homem provedor”.

A armadilha da gaiola de ouro

Esse paradoxo é perigoso e rentável. Ao embalar a dependência financeira com a estética do individualismo neoliberal e vendê-la como status, a rede empurra mulheres para o que se pode chamar de síndrome da gaiola de ouro: permanecer numa relação de controle porque sair parece custar mais do que ficar.

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do Metrópoles

Não é fraqueza de caráter; é armadilha estrutural. A dependência econômica em relação ao agressor é um dos principais obstáculos para deixar um relacionamento violento. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública reconhece essa dependência como um dos fatores que silenciam a denúncia e ajudam a manter a mulher presa ao ciclo.

Mais do que reflexos que se espelham, a vertente reacionária da femosfera e a machosfera radicalizada são as duas faces de uma mesma moeda: a mercantilização do essencialismo de gênero, que vende dependência a elas e dominação a eles.

Mulheres como ativos precificados

A face masculina, a machosfera, opera sob a mesma lógica fria. O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública, na esteira da ONU Mulheres, a define como o conjunto de comunidades on-line que associam o valor masculino ao domínio sobre as mulheres, e dedica um texto inteiro a mostrar como esse “mandato de masculinidade”, assentado no controle e na superioridade, se conecta à violência letal.

A mercantilização chega ao absurdo nas “calculadoras de valor sexual de mercado”, que reduzem mulheres a ativos precificados por juventude e submissão. É a contrapartida exata do “homem provedor”: de um lado, o parceiro reduzido a uma cifra; do outro, a mulher reduzida a um troféu, ativo a ser exibido e descartado quando perde o brilho.

Para justificar essa dominação, “coaches” vendem o mito do “macho alfa”, conceito pseudocientífico que o próprio biólogo que o popularizou, L. David Mech, refutou há décadas. A hierarquia baseada na força bruta, sabe-se hoje, não existe em alcateias livres: só aparece entre lobos presos, sob o estresse do cativeiro.

O cativeiro real e o lucro digital

Mas o verdadeiro cativeiro não é o do lobo do mito: é o da mulher que entra na gaiola e descobre, tarde demais, que o provedor não comprou sua companhia, mas a sua posse. Não é força de expressão. No Distrito Federal, dados da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) mostram que 59% dos feminicídios consumados tiveram como motivação o controle coercitivo (ciúme ou sentimento de posse). Não por acaso, a Lei Maria da Penha reconhece a privação de recursos econômicos como violência patrimonial.

E é justamente desse controle que o ecossistema digital lucra. Mais do que um espaço passivo, o ambiente premia o que gera reação, e o algoritmo faz a misoginia florescer porque ela rende: quanto mais ofensivo o conteúdo, maior o engajamento; quanto maior o engajamento, maior o alcance; e quanto maior o alcance, maior a receita, seja em publicidade, seja na venda de cursos, mentorias e comunidades pagas. Nesse arranjo, a misoginia não é um efeito colateral do negócio: é o seu motor.

A covardia desse modelo fica evidente assim que o Estado se aproxima. Sob ameaça judicial, o extremismo vendido como “verdade” se transmuta na desculpa cínica de que era só uma piada, apenas um “personagem”. Mas a encenação é seletiva: diante do consumidor, o discurso nunca é admitido como ficção, porque é justamente a pretensão de autenticidade que sustenta a venda.

O contágio da violência

O preço dessa monetização do preconceito é pago nas delegacias. O ambiente digital reúne os ingredientes que a criminologia associa ao crime de imitação, o copycat: exposição repetida, corrosão dos freios morais e o agressor transformado em modelo a seguir. Essa dinâmica de contágio é bem documentada no comportamento suicida (o efeito Werther) e há sinais de que alcance a violência de gênero.

O caso mais citado é o da argentina Wanda Taddei, queimada pelo marido em 2010: após a enorme repercussão midiática, especialistas registraram uma multiplicação de ataques a mulheres por fogo no país, batizando o padrão de “efeito Wanda”. Investiguei essa hipótese nos dados do DF; ela ainda não se confirma com robustez estatística tradicional, mas é séria demais para ser descartada. A pesquisa continua.

A violência doméstica raramente começa com um tapa, e raramente termina em morte. O feminicídio é apenas o topo mais visível de uma escalada de controle. Em 2025, para cada feminicídio consumado, o Brasil registrou quase três tentativas (4.189). No DF, entre as vítimas que tinham conseguido uma medida protetiva de urgência, mais da metade foi morta com a medida ainda em vigor, o retrato mais cru de que a lei, sozinha, não fecha a gaiola.

Quando a mulher enxerga as grades e tenta romper o contrato, o agressor não vê a perda de uma parceira: ele vê a rebeldia de um ativo.

Tratados dos quais o Brasil é parte, como a Convenção de Belém do Pará, são claros: a propagação de estereótipos de gênero não é inofensiva. É causa e consequência da violência, acionando um dever inafastável de prevenção pelo Estado.

Tolerar que o ódio funcione como negócio altamente lucrativo, sob o falso manto da liberdade de expressão, não é proteger direitos. É terceirizar o risco de morte das mulheres. Não haverá paz nos lares enquanto a radicalização for a mercadoria mais rentável da rede.

*Marcelo Zago Gomes Ferreira é delegado de polícia, coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) do Distrito Federal e doutor em Administração Pública pelo IDP. O artigo reflete a posição pessoal do autor, com total autonomia acadêmica.

Fonte: Metrópoles