Hacker ligado a esquema de Vorcaro fugiu de Lagoa Santa ‘cantando pneus’ com computadores e malas

Investigação da PF aponta que hacker recebia R$ 35 mil por mês para comandar braço hacker

PF diz que David Henrique Alves, líder dos “Meninos”, saiu às pressas de MG rumo a SP após operação contra grupo de ataques cibernéticos e monitoramento ilegal.

BRASÍLIA – David Henrique Alves, apontado pela Polícia Federal (PF) como líder do núcleo hacker “Os Meninos”, protagonizou uma fuga considerada suspeita pelos investigadores no mesmo dia em que a terceira fase da operação Compliance Zero foi deflagrada e Daniel Vorcaro foi preso

Segundo os policiais, ele deixou às pressas a casa que havia alugado em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, levando computadores, notebooks, caixas e malas dentro de uma Range Rover de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, preso no mesmo dia do fundador do Banco Master – e que apareceu morto na cela da Superintendência da PF em BH.

De acordo com relatos reunidos pela investigação, David saiu do condomínio por volta das 15h “cantando pneus”, em alta velocidade, a ponto de moradores reclamarem da condução agressiva do veículo.

Horas depois, já durante a noite, ele foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) enquanto seguia em direção a São Paulo. 

Dentro do carro, os agentes encontraram um computador de mesa de grande porte, notebooks, malas e outros equipamentos eletrônicos que, para a PF, podem ter relação com tentativa de ocultação ou destruição de provas.

A movimentação chamou ainda mais atenção porque, poucas horas antes da fuga, David havia telefonado para a imobiliária pedindo o cancelamento urgente do aluguel do imóvel. Segundo a corretora, ele alegou que precisava ir para São Paulo cuidar de um parente. A proprietária da residência afirmou aos investigadores que o suspeito era uma pessoa “reservada”, “estranha” e pouco vista na rotina do condomínio.

No dia seguinte à saída apressada, um homem ligado ao círculo de confiança de David apareceu na casa junto de um caminhão de mudança. A PF afirma que o grupo começou rapidamente a esvaziar o imóvel logo após a operação policial, o que reforçou a suspeita de tentativa de retirada de materiais considerados sensíveis para a investigação.

Chefe do grupo de ataques cibernéticos 

A decisão judicial que autorizou as medidas cita que David Henrique Alves exercia papel central dentro da organização criminosa investigada. Conforme a PF, ele comandava o núcleo responsável por ataques cibernéticos, invasões telemáticas, monitoramento digital clandestino, derrubada de perfis em redes sociais e obtenção ilegal de informações.

Os investigadores afirmam que o grupo atuava sob a gerência de Phillipi Mourão e, em tese, atendia interesses do empresário Daniel Vorcaro, apontado como integrante do núcleo principal da organização. A investigação sustenta que David não era apenas um colaborador técnico, mas o responsável por coordenar operadores digitais e estruturar a atuação hacker da organização.

A PF aponta ainda que David recebia cerca de R$ 35 mil mensais de Mourão, com pagamentos que teriam sido feitos por meio da empresa BIPE Software Brasil Ltda., da qual ele seria proprietário e administrador. Para os investigadores, a empresa pode ter sido usada como estrutura formal para custear as atividades clandestinas do grupo.

Ataques a quem criticava o Master

Outro ponto destacado na investigação envolve a atuação do núcleo “Os Meninos” em ações ofensivas contra críticos da organização. Segundo a PF, o grupo teria conseguido derrubar perfis em redes sociais e realizar monitoramento ilegal de alvos específicos usando ferramentas tecnológicas clandestinas.

A operação também identificou outros integrantes ligados ao braço hacker. Entre eles estão Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos e Victor Lima Sedlmaier, apontados como colaboradores diretos de David. 

Victor, inclusive, foi encontrado no imóvel do investigado após a fuga, carregando equipamentos de informática, dinheiro em espécie e materiais considerados relevantes para a apuração.

Os investigadores também encontraram, dentro do carro dirigido por David durante a abordagem policial, um documento de identidade em nome de terceiros. A PF apura se o material era utilizado para ocultação de identidade ou para facilitar movimentações do grupo.

A operação Compliance Zero investiga uma suposta estrutura criminosa com atuação em espionagem clandestina, ataques digitais e monitoramento ilegal de pessoas consideradas alvos de interesse da organização. 

A terceira fase da ofensiva policial teve como foco aprofundar a apuração sobre o braço tecnológico do grupo, descrito pela PF como uma espécie de célula especializada em operações digitais clandestinas.

Fonte: O Tempo