Belo Horizonte – A morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, 43 anos, conhecido como o “Sicário” ou “faz-tudo” do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, segue gerando atenção por causa dos mistérios envolvidos no que é tratado como suicídio pela Polícia Federal. Ele está sepultado em um túmulo ainda sem placa no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.
O Sicário morreu após ser preso pela PF, em 6 de março. Ele chegou a ser levado para o hospital após atentar contra a própria vida na cela na carceragem da PF em Belo Horizonte, mas não resistiu. Sua morte cerebral foi contatatada no Hospital João XXIII, na capital mineira.
A PF está por fechar um inquérito sobre o caso.
Recentemente, apareceram inconsistências nos registros oficiais: a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) registrou o sepultamento dele quase um mês antes da data oficial de sua morte, e a certidão de óbito não informa a causa do falecimento, constando apenas “aguardando exames”.
O erro da Prefeitura foi identificado em primeira mão pelo Metrópoles na coluna de Igor Gadelha. Segundo a reportagem, o sistema oficial de registro de sepultamentos da capital mineira (Sinec) indicava que o corpo de Luiz Phillipi havia sido enterrado no dia 8 de fevereiro de 2026, embora ele tenha morrido oficialmente em 6 de março de 2026.
O Metrópoles esteve no Cemitério do Bonfim, na região Noroeste, o mais antigo da capital mineira, para apurar o caso. No local, a equipe conversou com o coveiro responsável pelo sepultamento e com funcionários da administração do cemitério. Todos confirmaram que Luiz Phillipi foi realmente enterrado ali. “Estava cheio de gente aí”, relatou o coveiro.
Não há placa identificando o Sicário, mas há parentes dele sepultados no local.
Um funcionário da administração, que preferiu não se identificar, explicou que o cemitério estava movimentado no dia do enterro e justificou a ausência da placa com o nome “Luiz Phillipi” no jazigo da família: “Geralmente, quando a família pede a placa, ela fica pronta em mais ou menos 45 dias após o pedido. Mas ela só é colocada caso eles tenham pedido”.
Erro da Prefeitura e posicionamento oficial
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) admitiu o equívoco e atribuiu o problema a um “erro de digitação” no sistema Sinec. Em nota enviada à imprensa, a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica informou: “A divergência no sistema Sinec ocorreu por erro de digitação no lançamento do dado. A informação já está sendo corrigida”. A data foi atualizada para o período correto, em março de 2026.
Apesar da correção, o erro inicial — que registrou o enterro quase um mês antes da morte — alimentou questionamentos sobre a transparência dos registros oficiais.
Certidão de óbito incompleta
De acordo com a Polícia Federal, Luiz Phillipi foi preso em 6 de março de 2026 e, no mesmo dia, tentou suicídio na carceragem da PF em Belo Horizonte. Ele foi levado ao Hospital João XXIII, onde sofreu morte encefálica por falta de oxigênio no cérebro, segundo sua defesa.
A certidão de óbito, registrada no Cartório do 1º Subdistrito de Belo Horizonte em 7 de março, não menciona o motivo da morte — apenas indica que a causa está “aguardando exames”.
Especialistas em cartórios consultados pela coluna de Igor Gadelha afirmam que não é comum emitir certidão sem a causa da morte. No entanto, isso pode ocorrer quando a família deseja realizar o enterro com urgência, enquanto aguardam resultados de exames complementares do Instituto Médico-Legal (IML). Em casos de suicídio, é comum constar termos como “lesões autoinfligidas”. A certidão também não informa em qual cemitério o corpo foi sepultado, embora registros oficiais apontem para o Cemitério do Bonfim.
Relembre o caso
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão era apontado como um dos principais operadores de Daniel Vorcaro, responsável por executar diversas ordens do banqueiro no escândalo investigado pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Conhecido como “Sicário”, ele integrava o que a PF descreve como uma espécie de “milícia pessoal” do ex-dono do Banco Master.
Apesar das informações da PF e da defesa sobre a tentativa de suicídio, as falhas nos registros oficiais — o erro de data no sistema da Prefeitura e a ausência da causa da morte na certidão — alimentam dúvidas sobre as circunstâncias do caso.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator das investigações do caso Master, negou o acesso da CPI do Crime Organizado do Senado aos dados sigilosos sobre a morte de Luiz Phillipi. Segundo Mendonça, as investigações ainda estão em andamento, e o compartilhamento só poderá ser reavaliado após o encerramento das diligências.
Outro mistério no Cemitério do Bonfim
Inaugurado em 8 de fevereiro de 1897 — no mesmo ano da fundação da capital mineira —, o Bonfim funcionou como a única necrópole de BH por mais de quatro décadas. Localizado no bairro de mesmo nome, o local abriga um rico acervo histórico de esculturas e túmulos, testemunhando as transformações urbanas da capital ao longo de quase 130 anos.
O cemitério também é famoso por abrigar uma das lendas urbanas mais conhecidas de Belo Horizonte: a da “Loira do Bonfim”. Surgida nas décadas de 1940 e 1950, a história conta que uma mulher loira, de beleza marcante, seduzia homens boêmios no Centro da cidade durante a madrugada.
Ela os convidava para ir até sua “casa” no bairro Bonfim, muitas vezes pedindo carona de bonde, táxi ou carro. Ao chegar ao cemitério, a loira desaparecia, deixando os acompanhantes assustados. A lenda persiste até hoje e já inspirou livros, reportagens e discussões sobre o imaginário popular da cidade.
Fonte: Metrópoles







