Secretário de Guerra deu informações falsas a Trump sobre Irã, diz jornal

Dados ‘excessivamente otimistas’ de Pete Hegseth contrastam com a realidade de aeronaves derrubadas e programas de mísseis iranianos ainda ativos, aponta reportagem do The Washington Post

SAUL LOEB / AFPPresidente dos EUA, Donald Trump, observa enquanto o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, fala sobre o conflito no Irã na Sala de Imprensa James S. Brady da Casa Branca, em Washington

O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, deu informações falsas ao presidente Donald Trump sobre o andamento do conflito contra o Irã, segundo reportagem do The Washington Post publicada nesta quarta-feira (8). As estatísticas apresentadas pelo secretário eram “excessivamente otimistas” e teriam levado Trump a repetir publicamente dados enganosos sobre o controle total do espaço aéreo iraniano.

Enquanto Trump e Hegseth descreveram a campanha como um “sucesso absoluto” — com o presidente afirmando na segunda-feira (6) que os EUA estão “se saindo incrivelmente bem” e o secretário dizendo que o Irã foi “envergonhado e humilhado” —, acontecimentos mostraram que Teerã ainda conseguia ameaçar forças americanas. Na sexta-feira (3), um caça F-15E foi derrubado por um míssil teleguiado por calor disparado de um avião portátil iraniano. Dois militares ficaram temporariamente isolados em território inimigo e só foram resgatados após uma operação de alto risco.

O episódio colocou em xeque as repetidas declarações de Hegseth de que os EUA têm “controle total do espaço aéreo iraniano” e que o Irã “não possui defesas aéreas”. Um funcionário do governo americano, que falou sob condição de anonimato, afirmou diretamente: “Pete não está falando a verdade ao presidente. Como resultado, o presidente está por aí repetindo informações enganosas”.

Trump reconheceu o abate do F-15 durante coletiva na Casa Branca, mas minimizou o caso: “Ele teve sorte. Foi um golpe de sorte”. No mesmo dia, o Irã também derrubou um avião de ataque A-10, embora o piloto tenha conseguido voltar ao espaço aéreo antes de ejetar.

A analista militar Kelly Grieco, do Stimson Center, explicou que os EUA têm superioridade aérea, mas não supremacia total. “Nossa superioridade aérea é limitada geograficamente a oeste e ao sul, mas também em termos de altitude”, disse ela à reportagem do The Washington Post. Os aviões americanos vêm voando acima de 15 mil ou até 30 mil pés para evitar foguetes portáteis como o que atingiu o F-15.

Lançadores intactos

Além do espaço aéreo, outras afirmações de Hegseth estão sendo questionadas. Ele disse repetidamente que os programas de mísseis e drones do Irã estão sendo “destruídos em sua grande maioria”. No entanto, avaliação recente da inteligência americana — repassada a três fontes ouvidas pelo jornal — indica que mais da metade dos lançadores de mísseis ainda está intacta e que milhares de drones de ataque continuam no arsenal iraniano.

Hegseth também afirmou que o número de lançamentos iranianos caiu para o nível mais baixo desde o início da guerra. Documentos internos do governo, segundo funcionários, contradizem essa informação: períodos de 24 horas com ainda menos lançamentos ocorreram em meados de março. Dados de código aberto compilados pelo especialista Dmitri Alperovitch confirmam a discrepância.

Autoridades americanas afirmam que o foco apenas no volume de lançamentos é equivocado. O Irã mudou de estratégia: em vez de atacar em grande quantidade, passou a preservar seu arsenal e priorizar ataques mais precisos e eficientes. As “taxas de acerto” dos projéteis iranianos aumentaram ao longo do tempo, segundo análise de fontes abertas.

Sete soldados americanos morreram em contra-ataques iranianos e outros seis em um acidente de reabastecimento em voo. Quase 375 ficaram feridos. Além disso, o Irã lançou mísseis balísticos contra aliados americanos na região e acionou grupos apoiados por ele, como o Hezbollah no Líbano e milícias xiitas no Iraque, sobrecarregando os sistemas de defesa antimísseis.

O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, rejeitou as críticas e classificou a reportagem como “mentiras e propaganda”. Já a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou que Trump “sempre teve uma visão completa do conflito” e que nada o surpreendeu.



Fonte: Jovem Pan