Não, não sou eu que digo e não foi ninguém que me disse sob anonimato. No jornalismo das antigas, era proibido publicar declarações em off, e ainda por cima entre aspas. Em off, qualquer um diz qualquer coisa porque não será responsabilizado por ela.
Ainda bem que foi em voz alta, e durante um evento público promovido pelo banco de investimentos do Bradesco BBI, em São Paulo, que Gilberto Kassab, presidente do PSD, disse o que disse sobre a candidatura de Ronaldo Caiado a presidente.
Relembro para os esquecidos. Há poucos dias, Kassab anunciou que Caiado, governador de Goiás, seria o candidato do PSD à sucessão de Lula. Ratinho Júnior, governador do Paraná, desistira de ser. E antes dele, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Para isso, Caiado teria de renunciar ao governo de Goiás, e ele o fez. E deveria se apresentar como uma alternativa a Lula e a Flávio Bolsonaro, o candidato do pai dele, condenado e preso. Caiado renunciou e se ofereceu como alternativa aos dois.
Então, aconteceu o que ninguém seria capaz de imaginar, o que nunca pensei ver em quase 60 anos de jornalismo. Tido como o mago da política na última década, capaz de tirar as meias dos pés sem precisar tirar os sapatos, Kassab disse:
“[Se a candidatura de Caiado atingir 15% das intenções de voto], está ótimo. Acho que é muito importante que se tenha essa alternativa, nem que fosse para perder. Os brasileiros precisam mostrar que existe outro caminho”.
Parou por aí? Não parou. Afirmou que, mesmo se Caiado não chegar ao segundo turno, ter 15% dos votos é uma esperança. E explicou por quê: “São 15% com os quais nós vamos chamar alguém e dizer: ‘vamos apoiá-lo porque queremos isso e aquilo’.”
À luz de hoje, chamar alguém significaria chamar Lula ou Flávio para negociar o apoio do PSD no segundo turno ou no primeiro. Se Caiado chegar em julho com dois dígitos nas intenções de voto, Kassab não terá vergonha de rifar sua candidatura.
Quem dá mais? Quem dará isso ou aquilo pelo apoio do PSD? Quanto a Caiado, será louvado pelo esforço demonstrado. Nesse caso, poderá se bandear para o lado de Flávio, pois é com ele que se identifica. E o PSD para o lado de quem pagar melhor.
Vai dizer que Caiado não sabe desde já que será assim? Que foi enganado por Kassab? A esperança de Caiado é ultrapassar Flávio ou vê-lo declinar acentuadamente até o final do prazo para o registro oficial das candidaturas, em 15 de agosto.
Em pesquisa Datafolha divulgada há um mês, Caiado marcou 4% das intenções de voto em cenário com Lula, que aparecia com 39%, e Flávio, que tinha 33%. Amanhã terá nova pesquisa Datafolha.
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Fonte: Metrópoles




